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A Polônia que os filmes revelam

Quando Andrzej Wajda recebeu o Oscar especial pelo conjunto de sua obra, Jane Fonda foi chamada para lhe entregar o prêmio. Ela se curvou perante o mestre e o chamou de Sr. Política. A própria Jane foi a representação da militância em Hollywood, por volta de 1970. Quem mais teria estatura, para homenagear Wajda? Ele foi um dos grandes do cinema em seu país. Sua fase dos anos 1950/60 coincidiu com o surgimento de Andrzej Munk, Roman Polanski e Jerzy Skolimowski e com a consagração internacional de Jerzy Kawalerowicz.

Luiz Carlos Merten, O Estado de S.Paulo

26 de novembro de 2010 | 00h00

Nos anos 1960, nunca é demais lembrar, o mundo estava em pleno processo de transformação. As mudanças de comportamentos se refletiam no cinema. Multiplicavam-se (e consolidavam-se) as novas cinematografias. Ali perto, na antiga Checoslováquia, a "primavera de Praga" representou um sopro tão grande de liberdade que assustou Moscou e os soviéticos acabaram com a festa. Em toda a chamada "Cortina de Ferro", houve um endurecimento dos regimes comunistas. A Polônia não fugiu à regra, mas o sindicato Solidariedade ajudou a reescrever a história do país.

Os filmes que agora integram o ciclo do cinema polonês - uma realização da Urszula Groska Produções, com apoio do consulado da Polônia - são produções de 2004 a 2009. A exceção é Ursinho, de Stanislaw Bareja, de 1980. Justamente sob o impacto do movimento popular que irrompera no país - a força do sindicato de Lech Walesa coincide com o apoio que lhe deu o papa polonês, Karol Wojtila, rebatizado como João Paulo II -, os poloneses começaram a rir da própria desgraça.

Ursinho é sobre presidente de um clube esportivo que vai a Londres. Ou melhor, tenta ir, porque problemas com seu passaporte o levam a ser detido pelas autoridades. Ele suspeita da mulher, de quem está separado. O casal conseguiu enviar dinheiro para um banco na Inglaterra e agora ele teme que ela vá se apropriar da pequena fortuna. Em 1980, abria-se uma nova era, consolidada pela queda do Muro de Berlim - e a derrocada do comunismo - em 1989. Uma década prodigiosa e qual é o saldo agora?

Assim como seus colegas - precursores - criticavam antes o comunismo, os novos diretores criticam agora o mundo redesenhado pela economia globalizada. A Festa de Casamento, de Wojciech Smarzowski, ganhou os principais prêmios do cinema polonês em 2005 e também representou o país em mostras internacionais (em Locarno e Karlovy Vary). Com humor negro, o diretor mostra o pai da noiva que presenteia o genro com um carro, mas o avô da garota se recusa a ceder uma parte de suas terras, como combinado. Garotas de Shopping, de Katarzyna Roslaniec, mostra pré-adolescentes seduzidas pelas ofertas de consumo e que encontram "patrocinadores" dispostos a bancar seus desejos, desde que ela também satisfaçam os deles. A prostituição talvez existisse camuflada sob o comunismo, mas hoje é escancarada, expõe a diretora.

A Reserva, de Lukasz Palkowski, revela, pelo olhar de um fotógrafo amador, a Varsóvia que os turistas não veem. A Pequena Moscou, de Waldemar Krzystek, lembra os abusos cometidos pelo Exército soviético na Polônia. O Jardim de Luiza, de Maciej Wojtyszko, trata dos amores de dois desajustados - um delinquente que vive zombando da lei e uma garota hipersensível -, que se conhecem num instituto psiquiátrico. Você vai se atualizar não só com o cinema, mas com o país.

CICLO DE CINEMA POLONÊS

Hoje, 15h, O Jardim de Luiza (2007), de Maciej Wojtyszko; 17h10, A Reserva (2007), de Lukasz Palkowski; 19h20

A Festa de Casamento (2004), de Wojciech Smarzowski.

Cinesesc. Rua Augusta, 2.075, Jd. Paulista, 3087-0500. Até 2/12. Grátis.

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