A política e a ceia natalina

"E como foi que Newtown afetou você?", perguntei a um membro da família de minha mulher - não direi quem - na primeira reunião social aqui em La Jolla, onde estamos instalados num hotel a cerca de 15 minutos de carro da casa da mãe e do padrasto de minha mulher. "Oh, aconteceu longe demais para nos afetar muito", ela disse.

Lee Siegel,

30 de dezembro de 2012 | 02h05

Não fiquei muito surpreso. Se estar em Los Angeles pode nos fazer sentir que estamos na Estação Espacial 4X288, visitar La Jolla pode, com frequência, nos dar a sensação de estar em outro planeta. A cidade é linda, uma joia como seu nome sugere, toda palmeiras ondulantes, vistas panorâmicas repentinas do Pacífico, colinas de um verde luxurioso pontilhadas de adoráveis casas com vista para o oceano. Enquanto tempestades de inverno maltratavam o restante do país, o sol brilhava sobre os excelentes restaurantes e lojas de La Jolla. O massacre de inocentes em Connecticut, as devastações do furacão Sandy, até a paralisia em Washington que ameaça mergulhar os americanos mais vulneráveis numa longa noite de angústia econômica pareciam acontecimentos de outro país.

La Jolla é tão segura que dizem que alguns barões da droga mexicanos compram segundas casas nas comunidades superprotegidas da cidade porque gostam da sensação de segurança. Em La Jolla vivem, sobretudo, aposentados ricos, e alguns poucos empresários jovens abonados. Podem-se ver as montanhas de Tijuana das colinas da cidade. Submarinos deixam a base naval próxima para patrulhar a costa. Pelicanos fazem ninhos nos recifes, algumas dezenas de focas prenhes repousam nas angras arenosas à espera de parir, e várias toneladas de excremento de aves permeiam o ar com sua pungência. Mitt Romney tem uma casa aqui.

Este foi nosso primeiro Natal com os dois filhos na casa de minha sogra. A cena é tipicamente americana. É preciso uma tabela de beisebol para não perder a conta do pessoal. A mãe de minha mulher está no seu segundo casamento, seu segundo marido está no seu segundo casamento, o filho do primeiro casamento dele está no seu segundo casamento com uma mulher no seu segundo casamento que tem uma filha do primeiro casamento, e eu estou no meu segundo casamento.

A mistura de classes é muito característica da América contemporânea. A irmã mais nova de minha mulher casou com um motorista de caminhão, e seu irmão mais novo é professor de pequena faculdade no meio-oeste, cuja mulher tem um emprego em tempo parcial num restaurante de fast food. Mas tudo é um perpétuo vexame para mim que, como um irônico intelectual urbano judeu, tenho pouca coisa sobre o que conversar com eles. Bem, eu tento. O vinho ajuda. Mas depois de esgotar os tópicos de filhos e escolas, eu me retiro, vou para o pátio e fico olhando por algum tempo as luzes que cintilam nas violentas e enigmáticas montanhas mexicanas; e depois, aborrecido, volto, e sempre contra meus melhores instintos, inicio uma conversa sobre política.

Isto é sempre um erro, é sempre um desastre, e eu nunca deixo de instigá-lo porque não posso ficar parado no pátio a noite toda olhando para o México - e não posso continuar bebendo até o ponto não só de estar bêbado, mas de parecer bêbado. Noite passada foi particularmente desastrosa. Comecei com a importância de aumentar impostos para certas categorias fiscais, ponto este em que minha em geral cálida e generosa sogra cruzou os dedos para mim como as pessoas fazem em filmes quando estão tentando afugentar lobisomem ou vampiro, e saiu abruptamente da mesa. Procurei apoio de pessoas de meios mais humildes, o motorista de caminhão e o professor de faculdade, mas eles balançaram as cabeças.

Ora, uma pessoa mais racional e sociável teria mudado de assunto, mas inspirado ou provocado de alguma maneira obscura por aquelas enigmáticas montanhas mexicanas, lancei outra questão: controle de armas. Não só as pessoas não deveriam poder possuir algum tipo de arma, eu disse, mas dada a natureza humana, as pessoas não poderiam ter nada mais perigoso do que uma pistola d'água - e mesmo as pistolas d'água deveriam ser controladas pelo Estado. Isso causou um clamor, para dizer o mínimo. E assim foi, enquanto eu prosseguia e tratava de temas como assistência médica universal (equivalente ao comunismo, me disseram), imigração (que entrem todos, eu entoei), e ao que me referi como a irremediável brancura de Romney (olhares estupefatos). Ao fim de meu pequeno seminário, eu parecia exatamente o tipo de liberal empertigado e presunçoso que detesto, uma percepção que rapidamente tornei pública, o que resultou numa rodada de sorrisos e um arremedo de aplausos. Depois, tomei mais duas taças de vinho e saí pela casa beijando e abraçando os filhos de todo o mundo.

Evidentemente, o problema é que, como um casal que briga sobre dinheiro como um símbolo de tudo o mais que está errado no casamento, a política nunca trata realmente de política. Eu poderia perfeitamente estar deslocando minha tristeza por me sentir desajustado no jantar natalino, já que minhas memórias de infância não têm nada a ver com o Natal, e as pessoas que estão entranhadas nessas memórias já se foram todas. Ideologia e uma dor privada combinam como Papai Noel e rena.

No carro, descendo pela estrada sinuosa em direção ao hotel, minha mulher, que não tinha ouvido minhas provocações políticas, me perguntou se eu tinha me divertido. E a verdade é que tinha, apesar de, ao mesmo tempo, o Natal ainda estar longe demais para me causar o mesmo efeito que em meus filhos encantados e adormecidos.

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