A política como tragédia, na visão de um grande autor

Há um momento extraordinário de Vincere em que um filme - A Paixão de Cristo - é projetado no teto da ala de um hospital, para que os doentes possam assisti-lo. Lembra o monumental afresco de Michelangelo na Capela Sistina. Mas por que recorrer ao Cristo da compaixão num filme sobre a desumanização de um sistema, o fascismo, que avilta a pessoa humana?

Crítica: Luiz Carlos Merten, O Estado de S.Paulo

23 de julho de 2010 | 00h00

Marco Bellocchio será o maior cineasta italiano da sua geração? Ele estreou em meados dos anos 1960, precedido de pouco por Bernardo Bertolucci e Pier Paolo Pasolini. O primeiro, herdeiro de Roberto Rossellini, fez dialogarem o cinema estetizante de Luchino Visconti e a nouvelle vague de Jean-Luc Godard. O segundo, na passagem da literatura para o cinema, criou o neo-neorrealismo com Mama Roma.

Bellocchio, desde o começo, com De Punhos Cerrados, foi operístico. E ele filmou a família para transformar sua contestação em grande arte. Nos anos e décadas seguintes, nunca se desviou da política, que tem sido o farol do seu cinema. O mundo muda, os grandes mestres italianos morreram, a Itália reverte ao fascismo com Silvio Berlusconi. Bellocchio, viscontianamente, muda para permanecer o mesmo.

Homem de cultura, Bellocchio foi atraído pelo que há de trágico em Ida Dalser, a personagem interpretada por Vittoria Mezzogiorno em Vincere. Jovem, ela se ligou a Benito Mussolini, quando ele ainda era um militante socialista. Deu-lhe dinheiro para construir um jornal. Casaram-se na Igreja. Quando ele virou a casaca e se tornou fascista, resolveu varrer Ida de sua vida. Casou-se com outra, Ela nunca desistiu de ganhar reconhecimento para seu filho (e casamento). Conheceu o inferno por isso.

Na entrevista, Bellocchio relaciona Vincere à tragédia grega e diz que sua personagem tem algo de Antígona, ou de Medeia, mais do que da Mãe Coragem de Brecht, embora Ida tenha lutado até o fim por sua cria. Bellocchio é que não cultiva os procedimentos brechtianos de distanciamento crítico. Vincere segue outras fontes. Visconti e a ópera, com certeza. O futurismo de Marinetti, que foi simpatizante fascista, a despeito de suas ideias estéticas avançadas (como as políticas do jovem Benito também eram, antes de ele virar o Duce). E a psicanálise está sempre presente.

Numa fase polêmica de sua carreira, os anos 1980, Bellocchio ligou-se ao psicanalista Massimo Fragioli e ambos chegaram a codirigir. Alguns críticos até consideraram o cineasta um caso perdido. Respondendo à pergunta formulada antes, sim, talvez ele seja o maior (autor de sua geração). Bertoluccio segue talentoso, mas um tanto ziguezagueante. Bellocchio não abre mão da política. Ele usa ferramentas da psicanálise para entender o autoritarismo que se reflete na repressão sexual (e a fortalece). E não que compare Mussolini a Berlusconi, mas em Vincere o passado permite entender o presente.

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