A poética do cotidiano de Sara Ramo

Seu olhar afetivo diante de elementos do dia a dia ganha destaque na cena artística

Camila Molina, O Estado de S.Paulo

11 Julho 2010 | 00h00

Filha "do meio" de pai espanhol e mãe mineira de Araxá, a artista Sara Ramo, de 34 anos, se viu desde criança entre a Espanha e o Brasil. Mas em 1997, "por contingência da vida", se mudou para Belo Horizonte, onde trabalha e vive até hoje, e, por incrível que pareça, a capital mineira foi decisiva para que Sara criasse uma "imagética", como diz, essencial para a vertente poética extraída das pequenas coisas do cotidiano presente em suas obras, que cada vez mais ganham destaque aqui e no exterior - no ano passado, por exemplo, participou da 53.ª Bienal de Veneza, apresentando os vídeos Quase Cheio, Quase Vazio, no Arsenale, e uma instalação em espaço externo do mais tradicional evento, e este ano, ela estará na 29.ª Bienal de São Paulo.

Da opulência e dramaticidade de quadros como os de Velázquez e tantos outros mestres que Sara encontrava naturalmente nas salas do Museu do Prado ou no Reina Sofia em Madri, ela se deparou com uma cena artística completamente diferente em Minas, quando lá se instalou com pouco mais de 20 anos em meados da década de 1990 - ainda, naquela época, não existia o Instituto Inhotim, a 60 km de Belo Horizonte, o megacomplexo de arte contemporânea do empresário Bernardo Paz. "A dimensão das coisas ficou mais doméstica e a obra de artistas era como uma lenda. Até sobre Hélio Oiticica e Lygia Clark a gente só podia ver pelos livros, em imagens espalhadas", conta Sara, que atualmente exibe no Galpão Fortes Vilaça, na Barra Funda, em São Paulo, a impactante instalação A Grande Ilusão, feita a partir de trecho do filme homônimo de 1937 do diretor francês Jean Renoir e em colaboração com a artista mineira Cinthia Marcelle (leia mais abaixo), amiga e sua colega da Escola de Belas Artes da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG).

De sua formação "mineira", concluiu que "parecia ser mais possível trabalhos com elementos mais simples, com uma noção de escala acessível", como define Sara Ramo, trazendo para essa ideia a influência da arte brasileira da década de 1970 nas obras de Oiticica, Lygia Clark e Antonio Manuel, por exemplo. Sendo assim, como é realmente sua criação? A jovem artista potencializa em vídeo, fotografia, escultura e na instalação uma poética sobre o estranhamento do cotidiano, em espécies de "encenações" que unem, ao mesmo tempo, uma simplicidade de elementos banais - como objetos de banheiro, caixas de papelão, bolas de papel, etc. - e construções formais.

Sem pena. Sara era a "péssima aluna", como ela diz, que não sabia no colégio, em Madri, o que ia fazer de sua vida até optar pela arte. Ela, time da Galeria Fortes Vilaça, conta que, de certa forma, sua história artística de fato começou quando tinha uns 16 anos: passando uma temporada na casa de uma tia em Araxá, participou de um grupo de pintura e começou a fazer quadros "psicodélicos". "Até me formei em pintura na UFMG por uma questão prática, mas isso não faz a menor diferença", diz a artista, que iniciou sua formação na Universidade Complutense de Madri.

Depois da transferência para Minas, um momento importante de sua já premiada carreira foi ter ganhado, em 2003, a primeira edição da Bolsa do Museu de Arte da Pampulha em Belo Horizonte. "Até esse momento, a Sara tinha uma timidez, uma produção de arte incipiente, de caráter doméstico, de vídeos que ela fazia a partir de suas performances em sua casa", diz Rodrigo Moura, curador do Instituto Inhotim, mas que, integrante da mesma "geração de Belo Horizonte" da artista, já a conhece desde o momento em que ela se mudou para o Brasil. "Sua maneira de olhar para o mundo é surpreendente. Não há tanto a ideia de sentir pena das coisas, mas de reconciliação, de ressignificação, de revestir as coisas de afeto numa poética que nos coloca em contato com elementos banais de uma forma animadora", afirma ainda Moura, que, no ano passado, fez a curadoria da individual de Sara no Jardim Real Botânico dentro do 12.º festival PhotoEspanha.

"Sara tem uma capacidade de criação de imagens sintéticas, muito poéticas e subjetivas, um olhar aguçado de seu entendimento do mundo", diz Moacir dos Anjos, curador-geral da 29.ª Bienal de São Paulo. Para esta primeira participação no maior evento de arte brasileiro, a partir de setembro, a artista prepara o vídeo A Banda, inspirado no mundo de uma caixinha de música trazida para a escala humana, e a instalação Avalanche Concreta, com caixas de papelão. No terceiro piso do prédio, estará em diálogo com obras de craques como Cildo Meireles, Antonio Manuel, Francis Alys e Allan Sekula.

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