Evelson de Freitas/AE
Evelson de Freitas/AE

A poesia para o papel de Régis Bonvicino

Até Agora reúne os dez livros que o escritor publicou ao longo de 35 anos de carreira

Raquel Cozer, O Estado de S.Paulo

10 de dezembro de 2010 | 00h00

Em meados dos anos 70, Régis Bonvicino, então um estudante de direito de 20 e poucos anos envolvido com a poesia, sentia-se fora de contexto. Respeitava os concretos, mas não tinha intenção de fazer poemas visuais ou multimídia. Não queria ser letrista, algo que, como lembra, era "quase imposição" naqueles anos de tropicália - e uma intenção de seu grande amigo Paulo Leminski, que procurava lugar entre a vanguarda e o desbunde.

"Queria fazer poesia para o papel. Não buscava o racionalismo concretista nem a irracionalidade que vinha do zen", lembra Bonvicino, hoje com 55 anos, cujos interesses àquela época incluíam, além dos citados acima, a música de Bob Dylan e Rolling Stones e os poemas de Carlos Drummond de Andrade (1902- 1987) e do norte-americano Wallace Stevens (1879-1955). Os resultados das incertezas que durariam até o início da década de 80 podem voltar a ser conferidos em Até Agora, reunião dos volumes publicados ao longo de 35 anos pelo autor, que tem lançamento hoje, pela Imprensa Oficial do Estado de São Paulo.

Os primeiros poemas saíram originalmente nos livros Bicho Papel (1975), Régis Hotel (1978) e Sósia da Cópia (1983). Embora não renegue nada do que escreveu e inclusive goste da "energia" que ainda percebe naqueles poemas, foi dali para a frente que o paulistano reconheceu o caminho que gostaria de seguir. "Minha poesia foi um trabalho de concentração, de diálogo, de observação. De estar ligado a todas as coisas da cidade, das paisagens às artes plásticas. Sou um anti-Rimbaud. Não me sentia bem e fui construindo uma poesia própria, aprendendo com todos aqueles com os quais não me identificava totalmente", conta.

Esse segundo momento começa com Más Companhias, livro que reuniu trabalhos escritos de 1983 a 1986, e segue numa produção intensa que culmina, até o momento, com Página Órfã, de 2007 - atualmente, Bonvicino trabalha num novo livro. No volume que sai pela Imprensa Oficial, o leitor ainda pouco íntimo com a obra de Bonvicino será apresentado a ela a partir deste Página Órfã, retrocedendo então até aqueles três títulos iniciais, num exercício curioso de conhecer antes o poeta maduro. Nenhuma espécie de interesse fora do comum aí, afirma o autor - admirador de João Cabral de Melo Neto (1920-1999), com quem chegou a manter um relacionamento próximo, Bonvicino apenas sentiu-se compelido a seguir o modelo usado pelo mestre nas Poesias Completas, de 1968.

Bonvicino hoje mantém uma relação intensa com os meios virtuais. "Para mim, a coisa mais impressionante da vida não foi a chegada do homem à Lua, foi o surgimento da internet", diz. Envolvido desde 2001 com a edição da revista Sibila - hoje exclusivamente on-line, no endereço www.sibila.com.br -, trabalho que desenvolve em parceria com o poeta norte-americano Charles Bernstein, ele sente-se mais próximo da poesia feita em francês e em inglês. "Agora estou trabalhando temas diferentes. Eu fujo da literatura, acho que poesia não tem nada a ver com literatura. Não adianta ler João Cabral de Melo Neto e deduzir um poema igual ao dele. Procuro me afastar de tudo isso", diz.

 

 

POEMAS

 

"O lobo-guará é manso

foge diante de

qualquer ameaça

é solitário

avesso ao dia, tímido

detesta as cidades

para fugir do ataque

cada vez mais inevitável

dos cachorros

atravessa estradas

onde quase sempre é

atropelado

onívoro, com mandíbulas

fracas

come pássaros, ratos, ovos,

frutas

às vezes, quando está perdido,

vasculha latas de lixo nas ruas

engasga ao mastigar garrafas

de plástico ou isopores

se corta e ou morre ao morder

lâmpadas fluorescentes

ou engolir fios elétricos

morre ao lamber inseticidas

ou restos de tinta

ou ao engolir remédios

vencidos

ou seringas e agulhas

descartáveis

dócil, sem astúcia,

é facilmente capturado e morto

por traficantes de pele

quando então uiva

(Extinção. Página Órfã, 2007)

 

 

 

"O que matou com disparos

na cabeça

O que eletrocutou o

estuprador

- fio puxado do bico de luz

da cela -

e pediu perdão a Deus

O que decepou um dos seus

O que trocava de nome & de sexo

a cada morte

O que ouvia vozes

O que estuprou a filha

(meses)

O que atraía garotos

com revistas de mulheres nuas

"Papillon" traficava cocaína

e crack

Narque espancou o cara

até abrir sua carne

(O Que. Outros Poemas, 1993)

 

 

 

"Me

transformo,

outra janela–

outro

que se afasta e não se

reaproxima

nas desobjetivações e

reativações,

nas linhas e realinhamentos

outros

me atravessam

morto de ser

coisas perdem sentido

expressões figuradas como

ossos de borboleta

me transformo

na observação

de uma pétala

*

Me destransformo

a mesma janela –

outro

que não se afasta

Nas objetivações,

alinhamentos

e linhas inexistentes

iguais me repassam

Retrato desativado,

taxidermista de mim mesmo

(Me Transformo. Ossos de Borboleta, 1999)

 

"Quantas vezes

esfregou

os dedos nas unhas

o sol caindo atrás

das paredes

quantas vezes revezou-se

consigo mesmo em silêncio

quantas vezes esteve

no justo oriente de qualquer limo

quantas vezes quis

ser Rimbaud e traficou

aspirina

os dias passaram, severos,

como o vazio

hoje?, ontem?, quantas vezes

as grimpas não giraram

o amor era das palavras, entre elas

fria estrela que irrompe

(Canção 4. De Remorso do Cosmos, 2003)

ATÉ AGORA

Autor: Régis Bonvicino. Editora: Imprensa Oficial (564 págs., R$ 40). Local: Livraria Cultura. Avenida Paulista, 2.073, telefone 3170-4033, Hoje, às 18h30.

 

 

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