A poesia do fim

A ópera Dionysos, de Wolfgang Rihm, acompanha os últimos dias de vida do filósofo alemão Nietzsche

João Luiz Sampaio, O Estado de S.Paulo

28 de agosto de 2010 | 00h00

O compositor alemão Wolfgang Rihm pega nas mãos o pedaço de papel e lê. "O fascínio de Rihm por Nietzsche se explica pela maneira como o filósofo reinventa conceitos, busca nova compreensão para eles - e tenta mostrar que as palavras devem estar vivas, senão tornam-se rígidas e bloqueiam qualquer forma de pensamento livre." Ele faz uma pausa, contempla a vista. E solta uma enorme gargalhada. "É tão melhor quando outra pessoa define seu trabalho."

A obra de Rihm foi interpretada ao longo de todo o mês do Festival de Salzburgo - e a homenagem, ao lado das encomendas recebidas de algumas das principais orquestras e teatros de ópera de todo o mundo, dá uma medida de sua reputação atual no cenário internacional da composição.

Em Salzburg, o compositor de 58 anos não apenas foi tema de palestras e ouviu sua obra sinfônica e de câmara interpretada por grupos como a Filarmônica de Viena e o Quarteto Ardiiti - também viu subir ao palco pela primeira vez sua nova ópera, Dionysos, sobre os últimos dias do filósofo alemão Friedrich Nietzsche. "É algo muito estranho. Na semana passada, voltei alguns dias para minha casa em Karlsruhe e tentei compor algo. Nada. Essa imersão em música que Salzburg me ofereceu é incrível, verdadeiramente especial, mas acho que tirou toda a minha força", diz. "Espero que ela volte."

O texto lido por Rihm foi escrito por Ingo Metzmacher, maestro responsável pela direção musical do espetáculo. Ele acerta ao explicar o interesse do compositor pelo filósofo? O que lhe pareceu tão interessante em seus últimos momentos de vida? "Para mim, a única resposta possível é a música, a peça em si. Mas creio que Nietzsche sempre me interessou pela sua personalidade, muito intelectual, visionária e poética. Ele era artista e cientista ao mesmo tempo. Sua escrita está entre o que de melhor foi feito com a língua alemã. Seus poemas não me agradam tanto, para mim é na prosa que está sua grande poesia."

Vibração. A ópera intercala textos do filósofo com dados biográficos. "Digamos que as palavras são dele, mas o libreto é meu. O que pretendi fazer foi uma mistura na qual biografia e arte, mitologia, se dissolvessem uma na outra. É essa vibração entre elas que me parece interessante..." E como tratar a linguagem da ópera nos dias de hoje, depois de um século 20 no qual o gênero foi relegado a segundo plano pela vanguarda. "Não penso a arte nestes termos. O que seria uma ópera hoje? Não sei. Sei que começo do zero e aos poucos ela começa a ganhar forma. Cada ópera que escrevi tem uma cara diferente. Não se trata de levar uma ideia, um conceito, para uma partitura, mas, sim, de deixar a história que quero contar indicar os caminhos da música que vai narrá-la."

Nos anos 80, Rihm fez parte um grupo de autores associados pela crítica a um movimento informal que ficou conhecido como Nova Simplicidade. Em outras palavras, as escolas de vanguarda, bastante fortes e influentes desde os anos 50, deixavam de ser o guia para o compositor, que se sentia mais à vontade para trabalhar a construção musical, em muitos casos utilizando recursos da tradição, amaldiçoados pelos vanguardistas.

Liberdade. Rihm aceita essa caracterização de sua obra? "Para mim, é uma questão de liberdade, isso é o que de fato importa. A liberdade deveria ser o começo da arte, sua substância principal. E de alguma forma as escolas não foram importantes para seus criadores, mas sim para os que quiseram segui-los. Pierre Boulez, Stockhausen, Luciano Berio, esses caras simplesmente foram eles mesmos. E esta variedade, a pluralidade, isso é fantástico. Liberdade, sempre."

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