A ''Pina'' de Wim Wenders

Longa do diretor alemão foi destaque em domingo intenso

Luiz Carlos Merten, O Estado de S.Paulo

14 de fevereiro de 2011 | 00h00

Flocos de neve caíram ontem sobre Berlim, mas não chegaram a estender um tapete branco sobre a cidade. O frio é intenso, mas o festival começa a se aquecer. Cannes, para citar outro grande festival - o maior -, tem dado espaço à produção em 3-D, mas a Berlinale, ontem, dedicou toda a jornada ao formato. Começou pela manhã com Os Contos da Noite, do francês Michel Ocelot, prosseguiu meio-dia com a Pina, de Wim Wenders, e no meio da tarde, após o fechamento da edição, ocorreu a projeção de Cave of Forgotten Dreams, de Werner Herzog. Dois documentários e uma animação.

Ocelot, o diretor de Kiriku e a Feiticeira, faz do seu cinema uma festa permanente de cores e culturas. Ele cria uma meta-animação. Uma pequena equipe propõe temas para filmes. Surgem os contos - africanos, medievais, tibetanos. "Os contos de fadas são o meu país", disse o cineasta na coletiva. Ele não tenta adaptá-los. Alimenta-se deles, de sua moral aparentemente simples, mas que revela camadas. O psicanalista Bruno Bettleheim escreveu um livro sobre o que há no fundo desses contos.

"E o nosso filme, Wim ?" Wenders foi amigo de Pina Bausch por mais de 20 anos. Admiravam-se mutuamente, a grande coreógrafa e bailarina, e ele. Havia esse desejo de fazerem um filme juntos. Wenders, no ano passado, em São Paulo, na abertura de sua exposição no Masp, já havia dito ao repórter que não encontrava o formato. A 3-D forneceu-lhe a ferramenta que ele precisava, mas, quando isso ocorreu, Wenders perdeu Pina.

Seria fácil colocar um monte de gente falando sobre Pina Bausch e sua importância. Wenders colhe depoimentos que são mais como conceitos, definidos pelos bailarinos do Danzteather. Para revelar Pina Bausch, ele filma sua dança. A própria Pina diz que seus bailarinos às vezes a deixam sem fala. É a sensação que o espectador tem diante do filme. As palavras são insuficientes para descrever a experiência.

O que é uma coreografia de Pina Bausch? Frágil e forte, ela testava o próprio corpo e os de seus bailarinos. Dancem, dancem ou estaremos perdidos, é o subtítulo de Pina. "Procurem", ela insistia com eles, mas nunca esclareceu o que procurar. O corpo é movimento, os gestos não são necessariamente harmoniosos. Expressam a dor, a raiva, o êxtase. Homens e mulheres desafiam a gravidade e jogam-se nos braços uns dos outros, muitas vezes de olhos fechados. Esse ir ao limite, esse abandono de si, cria uma vertigem que você não via nos musicais da Metro nem mesmo em Cisne Negro, o filme de Darren Aronofsky em cartaz. Se a Berlinale terminasse hoje - e se estivesse na competição -, Pina já teria o Urso de Ouro.

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