"A Pervertida" é uma história de sexo

Tinto Brass roda atualmente em Veneza seu novo filme. É uma história de amor desenrolada durante a 2.ª Grande Guerra. Bem, se é um filme de Tinto Brass não deve ser bem uma história de amor, mas de sexo. Brass é do tipo que só pensa naquilo. A prova é A Pervertida, que começa a chegar hoje às locadoras e lojas especializadas de todo o País. O filme está sendo lançado diretamente em DVD e vídeo. Lembram de Monella, a travessa? Era uma freira perto da protagonista de A Pervertida. Mesmo assim, o filme fez menos sucesso que Monella nos cinemas italianos. Elevando o tom de voz, quase berrando, Brass explica o porquê, numa entrevista por telefone, de Veneza.Havíamos espalhado cartazes do filme por toda a Itália mas eles foram retirados pelas autoridades, porque era o ano mariano, consagrado a Maria, e eles achavam que o traseiro da pervertida conspurcava a imagem da mulher. Brass odeia o governo, a Igreja, a família. Acha que são instituições repressoras, que impedem o pleno exercício da liberdade. Diz que seu cinema não é erótico, o que poucos críticos concordam, muito menos pornográfico, o que a maioria julga ser. Para ele, seu cinema é libertário.Tão libertário que ele considera Jean Vigo seu mestre, mesmo que o diretor francês morto em 1934, aos 29 anos, tenha se destacado mais pela liberdade do espírito que propriamente pelo erotismo. Brass aproveita e faz um elogio: Você é do Brasil, não? Aquele brasileiro que escreveu sobre Vigo é autor do melhor livro sobre cinema que conheço. Refere-se a Paulo Emílio Sales Gomes. Era mais uma vez a libertação pela via do sexo que tinha em mente ao contar a história de A Pervertida, sobre essa italiana que vai para a Inglaterra e lá vive decisivas experiências, homo e heterossexuais. Brass diz que o título escolhido para o Brasil é coisa dos distribuidores, ele não tem nada c om isso. No original, chama-se Transgredire, Transgressing na versão inglesa. Ou seja: a que no Brasil é pervertida lá fora é transgressora. Brass também se acha transgressor. Pornógrafo, eu? Nunca.Acha que seu problema é não fazer o tipo de cinema erótico que os críticos gostam, filmes como Último Tango em Paris, de Bernardo Bertolucci, e O Império dos Sentidos, de Nagisa Oshima. Reconhece que possuem qualidades plásticas e dramáticas, mas não lhe agrada essa visão do sexo ligada à morte que tem respaldo na literatura e na poesia francesas. Lembra, a propósito, que não é por acaso que, após a ejaculação, vem o que os franceses chamam de petite morte. Que morte que nada. Para Brass, sexo é vida e não há aids que o faça mudar de opinião. A vida sem prazer sexual é um desperdício, sentencia.A obsessão pelo sexo não é recente. Não foi por acaso que seu oitavo filme, de 1968, se chamou, no Brasil, A Atração do Sexo. Mas o primeiro a fazer sensação foi Salão Kitty, de 1972, com sua mistura de mulheres nuas e uniformes nazistas. Veio depois, em 1979, o affaire Calígula. Contratado por Bob Guccione, Brass rodou o filme sobre a pervertida Roma dos sexos, mas o produtor queria mais safadeza e acrescentou os planos de sexo explícito, com os quais o diretor não estava de acordo. Brigaram na Justiça. O sexo, para ele, começa mesmo com A Chave, de 1983, ao qual se seguiu Miranda, dois anos depois. Em 1992, outro título emblemático: L´Uomo Che Guarda. O homem que olha, o voyeur.Na vida, Brass, que nasceu em 1933, jura que é oposto do que pode sugerir sua atividade como diretor. Casado há 45 anos (com a mesma mulher!), é avô dedicado, daqueles que babam pelos netos. Diz que sublima seus desejos de adultério dirigindo as belas atrizes de seus filmes. A de A Pervertida, encontrou num restaurante de Nápoles. Procurava um bumbum especial, um dia estou nesse restaurante, vem a garçonete, toma o pedido, quando deu as costas disse à minha mulher: é ela! Foi a chance de Yulya Mayarchuk. No novo filme dirige a deusa Ana Galiena, de O Marido da Cabeleireira, de Patrice Leconte. O novo filme, segure-se para não cair, é um remake, com nu frontal, claro, do clássico Sedução da Carne, de Luchino Visconti. Ah sim, qual entre todos os seus filmes é o preferido de Brass? Ele gosta muito de O Yankee, de 1966, um spaghetti western com Philippe Leroy, com visual baseado nos quadrinhos.A Pervertida. Itália, 2000. Direção de Tinto Brass com Yulya Mayarchuk. DVD e vídeo da Paris. A partir de hoje, nas locadoras. R$ 49

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