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A pergunta de Bobby Kennedy

Morto há 50 anos, ele não poderia imaginar qual seria, hoje, a resposta para a questão

Lúcia Guimarães, O Estado de S. Paulo

28 Maio 2018 | 02h00

Lembranças de 1968, o ano revisitado intensamente neste cinquentenário, vão ser especialmente dolorosas nos Estados Unidos, na semana que vem. No dia 6 de junho de 1968, o senador e candidato a presidente Robert Kennedy sucumbiu aos tiros disparados na véspera pelo palestino Sirhan Bishara Sirhan, na cozinha do Hotel Ambassador, em Los Angeles. Kennedy tinha acabado de fazer um discurso triunfal após a cobiçada vitória nas primárias eleitorais da Califórnia. A seguir, daria uma coletiva e decidiu, contra o apelo do seu guarda-costas, tomar um atalho pela apertada cozinha do hotel. Ali já o esperava Sirhan, um emigrante palestino cristão de 24 anos, nascido em Jerusalém, cuja família fora forçada a emigrar para Jordânia, no período após a fundação de Israel.

O senador entrou tarde na campanha presidencial em que ia desafiar o presidente democrata Lyndon Johnson. Mas, cada vez mais impopular com a guerra no Vietnã, Johnson chocou o país, retirando a candidatura no dia 31 de março. Bobby Kennedy parecia destinado a chegar à presidência, tomada de seu irmão John pelas balas de outro assassino em novembro de 1963. Mas os tiros de um palestino haveriam de colocar Richard Nixon na presidência, em novembro de 1968.

Bobby começou sua carreira de advogado, em 1952, no subcomitê do senador e ferrenho anticomunista Joseph McCarthy, conhecido pelo período da caça às bruxas. Era implacável com adversários e recebeu crédito pela vitoriosa campanha presidencial de John Kennedy, em 1960. Como ministro da Justiça do irmão, ele tinha relação tensa com os líderes negros do movimento de direitos civis e autorizou escuta telefônica do maior de todos, Martin Luther King. Mas King, o pregador, acabou sendo um mentor de consciência racial para o exasperado Bobby, que constantemente o instava a pegar leve nos protestos.

A evolução de Bobby Kennedy até 1968 revelou um político cuja plataforma era o fim da guerra no Vietnã, justiça racial e combate à desigualdade econômica. Foi ao seu lado, no dia 10 de março de 1968, que o lendário Cesar Chavez, o líder pacifista dos trabalhadores agrícolas da Califórnia, comeu um pedaço de pão, encerrando a greve de fome em protesto contra condições desumanas para migrantes no campo.

Jovens para quem a experiência de liderança é o Brasil de hoje podem procurar online o discurso improvisado no dia 4 de abril de 1968, quando Bobby Kennedy percorria o estado de Indiana. A caminho do voo para Indianápolis, ele ouviu o anúncio: Martin Luther King fora ferido por um homem branco em Memphis, Tennessee. Quando aterrissou, descobriu que King estava morto. 

O programa terminaria com um comício num bairro negro de Indianápolis. O chefe da polícia local disse que era impossível garantir que o candidato sairia vivo do local. Bobby dispensou a segurança, foi direto para o bairro, onde uma pequena multidão o esperava, e subiu num caminhão. Caberia a ele anunciar a morte de King, o que ele fez já na primeira frase. A multidão emitiu um grito dilacerante. Nos próximos quatro minutos, Kennedy reconheceu a desesperança da experiência negra: “Vale perguntar que tipo de nação somos e que direção tomar”. Pediu que a dor não se transformasse em violência e, citando duas vezes de memória Ésquilo, o pai da tragédia grega, concluiu com um trecho da trilogia Oresteia: “Vamos nos dedicar a domar a selvageria do homem e tornar suave a vida neste mundo”. 

Na semana seguinte, 45 pessoas morreram, mais de 2 mil ficaram feridas e 28 mil foram presas em distúrbios raciais em 70 cidades. Mas, em Indianápolis, não houve violência. Dois meses depois, Bobby Kennedy estava morto. Quando fez a pergunta retórica no topo do caminhão, ele não poderia imaginar qual seria a resposta, em 2018.

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