A perenidade do tropicalismo

Mais de 40 anos depois, movimento que envolveu música, política, cinema e comportamento ainda provoca discussões

O Estado de S.Paulo

23 de novembro de 2012 | 02h23

Já se passaram mais de 40 anos desde a eclosão do tropicalismo. O movimento não foi apenas musical. Englobou política, música, cinema, comportamento e, por isso, não deixa de inspirar artistas interessados numa expressão autenticamente brasileira, sem deixar de estar antenada na modernidade (nem no universal). Caetano Veloso escreveu um livro polêmico abordando o assunto e o diretor Marcelo Machado fez um documentário - Tropicália - que conseguiu se destacar num registro (quase) saturado como os dos documentários musicais, que se constituem numa tendência forte no País.

Tem mais tropicalismo nas telas. Pretérito do Futuro - Tropicalismo Now! reabre a discussão sobre um assunto que sempre mexe com críticos, historiadores e o público, desde a polêmica quanto ao uso da guitarra elétrica na MPB de Domingo no Parque, a música manifesto de Gilberto Gil no Festival da Record de 1967. Ninho Moraes e Francisco César Filho assinam conjuntamente a direção. O documentário reúne entrevistas, intervenções artísticas, esquetes e imagens do show de André Abujamra. O objetivo não é olhar a Tropicália numa perspectiva histórica - embora ela esteja presente. A ideia é criar a ligação entre os eventos ocorridos no fim da década de 1960 e a atualidade.

O que o tropicalismo tem ainda a dizer/oferecer às pessoas? A palavra de ordem - Tropicalismo Now! - é prova de que sim, o movimento ainda está vivo, na memória coletiva e no imaginário dos artistas. Você pode estranhar os nomes de Gero Camilo, que aparece na foto, e Alice Braga no elenco. Alice é filha do codiretor Moraes. Ela faz a Gioconda suburbana, Lindoneia, inspirada no quadro de Rubens Gerchman que motivou Caetano a compor a música. O conceito de Pretérito do Futuro é extrapolar o documentário no rumo do docudrama, uma coisa que Sylvio Back gosta de fazer (e faz em O Contestado - Restos Mortais, que também estreia hoje).

A origem está no show de André Abujamra no Teatro de Arena. Abu rearranjou músicas famosas da época, deu-lhes novas roupagens e é assim que elas ganham a tela, dando razão a Gilberto Gil, quando diz que o tropicalismo está vivo - tão vivo que foi tema de uma reportagem do The New York Times. E por que está vivo? Porque ainda nos expressa. Neste sentido, é bom que o espectador não veja Futuro do Pretérito isoladamente, mas em conjunto com outros filmes com os quais se articula - o citado Tropicália, Uma Noite em 67, de Ricardo Calil e Renato Terra, o próprio Dzi Croquettes, de Raphael Alvarez e Tatiana Issa, que nasceu da vontade de uma filha de conhecer seu pai, integrante do grupo.

O que todos esses filmes revelam é um desejo de contestar, de romper limites, de criar alternativas. Em plena ditadura militar, os tropicalistas estavam confrontando/desafiando a autoridade. Mais de 40 anos depois, o quadro político é outro no País, mas ainda existem limites a confrontar. No cinema, há toda uma luta por mercado, por um cinema que coloque na tela a cara do brasileiro. Na verdade, essa luta não é nova e já era a dos cine-novistas dos anos 1960, mas ela ainda não foi ganha (e talvez nunca seja). Qual é o cinema que nos reflete?

Diversos filmes brasileiros estão estreando nesta sexta-feira. Futuro do Pretérito é apenas um deles, e talvez nem seja o melhor. Mas o importante é sempre discutir a arte, a vida, o mercado. Os tropicalistas não temiam reinventar o velho. Cantavam 'churrasquinho de mãe' (Coração de Luto, o grande sucesso de Teixeirinha), revolviam nas entranhas do lendário Vicente Celestino. Muita gente os criticava, por isso, na época. A discussão já era guitarra versus música de raiz. E hoje, no cinema?

Até Que a Sorte nos Separe, de Roberto Santucci, acaba de bater 3 milhões de espectadores e é o maior sucesso brasileiro do ano. Não é o filme preferido dos críticos. O melhor filme brasileiro do ano, até agora, Sagrado Segredo, de Luiz André de Oliveira, deve ter feito 1% disso. Preferências à parte, ambos nos expressam e os tropicalistas já sabiam disso nos anos 1960. O documentário de Ninho Moraes e Francisco César Filho é sobre música, comportamento e cinema - no passado como no presente. No futuro do pretérito. / L.C.M.

Encontrou algum erro? Entre em contato

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.