A pele que elas habitam

L'Apollonide, de Bertrand Bonello, remete ao que há de sombrio no ser humano

LUIZ CARLOS MERTEN, O Estado de S.Paulo

20 de janeiro de 2012 | 03h08

No ano passado, o júri presidido por Robert De Niro outorgou a Palma de Ouro a A Árvore da Vida, de Terrence Malick. O prêmio poderia ter ido, com muito mais propriedade, para Melancolia, de Lars Von Trier, mas esta, certamente, é uma afirmação polêmica. De Niro e seus jurados, pelo menos, deram a Kirsten Dunst o prêmio de melhor atriz. Esqueceram-se de A Pele Que Habito, de Pedro Almodóvar. E de L'Apollonide - Os Amores da Casa de Tolerância, de Bertrand Bonello, que estreia hoje. Os filmes de Almodóvar e Bonello dialogam entre si. São quase complementares. São perturbadores.

François Truffaut diria, talvez, que são filmes doentes, pegando carona em Marnie, as Confissões de Uma Ladra, de Alfred Hitchcock. Todos tratam, em diferentes níveis - é verdade -, de sexualidade, criminalidade, morte. Remetem ao que há de sombrio no homem. O cientista Antonio Banderas é um louco obcecado por vingança, que destrói para criar e termina vítima da criação doentia pela qual se apaixona. E é um filme sobre a perversidade das relações entre homens e mulheres, entre homens e homens. L'Apollonide passa-se numa casa de tolerância na virada do século 19 para o 20, em Paris. Uma maison close, um bordel.

Há um fascínio por esse espaço que não é só um entreposto de carne, onde os homens buscam mulheres para descarregar seus hormônios. Isso ocorre nos quartos, que são fechados, em cima. O salão é o espaço social da confraternização, onde os homens bebem, fumam - e conversam. Nem todas as mulheres de L'Apollonide são belas. Ou melhor, nas suas diferenças - brancas, negras, árabes, loiras, morenas, magras, gordas, jovens, maduras - elas compõem um belo catálogo da exterioridade do feminino. Logo de cara, uma dessas mulheres é brutalmente mutilada (no rosto) por um cliente. Vira a mulher que ri.

Bertrand Bonello, nascido em Nice, em 1968 - um ano emblemático -, é compositor e cineasta. Professor na Fémis, divide-se entre o Canadá e a França. E é um autor representativo de uma geração - os radicais - que inclui Bruno Dumont e Catherine Breillat. Todos falam das pulsões do sexo em seus filmes, basta lembrar-se de O Pornógrafo, de Bonello (com Jean-Pierre Léaud), ou de Romance, de Catherine, ou de A Humanidade, de Dumont.

A mulher como uma fantasia masculina - é um dos temas de L'Apollonide. Para Bonello, seu filme é sobre o tempo. Mostra uma passagem, ou do fim de uma época. Ao longo da história, fica claro que os prostíbulos vão fechar. Até hoje eles existem, em Paris como em São Paulo, mas são mais 'closes' (fechados) que nunca. Curiosidade - existe luz elétrica no salão de L'Apollonide, mas nos quartos a iluminação é de velas. É, em parte, um recurso estético que define o visual do filme.

Bonello disse em Cannes que se inspirou em diários de prostitutas da época, mas que o pé na realidade o liberou para voar na imaginação. O filme e seus homens e mulheres são produtos do imaginário do autor. Um universo fechado - a cena na natureza revela que essas mulheres podem ser outras. Uma se droga para seguir em frente, outra sonha com casamento, respeitabilidade. Fantasias de homens, e mulheres. L'Apollonide é dolorosamente, insuportavelmente belo.

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