‘A Pele da Máquina’ é um espetáculo que redimensiona a dosagem do afeto

Ângelo Madureira e Ana Catarina materializam o interesse pela textura dos gestos

Helena Katz, Especial para O Estado de S. Paulo

18 de julho de 2014 | 02h00

A Pele da Máquina, a mais recente produção da dupla Ângelo Madureira e Ana Catarina Vieira, apresenta-se no sábado, 19, às 21h, e domingo, 20, às 20h, como parte da programação da 11ª Semanas de Dança, no Centro Cultural São Paulo. Ela ocupa um papel diferente na sua trajetória. Não apenas é sua primeira remontagem, mas uma remontagem da sua primeira obra encomendada – duas novidades simultâneas, que a distinguem das outras 19 que compõem o seu repertório. 

A Pele da Máquina vem de Nafta, criada na Croácia, para um elenco de seis bailarinos, em 2011, com financiamento da União Europeia, a convite de Zvonimir Dobrovic, diretor do Festival Queer Zagreb. 

A troca de nome tem uma função precisa: indica a impossibilidade de refazer aqui o que surgiu lá, discutindo a memória não como o que resta da obra, mas como parte dela. A Pele da Máquina não se propõe como uma remontagem, mas como a recordação de uma vivacidade. 

Não se dedica a reconhecer o passado como ele realmente foi. No sentido de Walter Benjamin, a nova obra apodera-se de uma recordação iluminando-a como se “em um momento de perigo”.

O interesse pelas texturas do gesto, que vem norteando a pesquisa da dupla, permanece. O que é um aperto de mão? Quantas camadas de pele podem estar nele envolvidas? Qual a dosagem de afeto ou de convenção implicáveis?

Seja um aperto de mão, seja um passo de dança popular, ambos recebem o mesmo tratamento que nutre as suas composições. Por isso, Ângelo e Ana Catarina podem reconvocar materiais de obras que surgiram depois de Nafta, como Mapa Movediço (2012) e A Revolta da Lantejoula (2011). Materiais do futuro refazendo o passado.

A pele desta máquina não identifica a superfície que delimita o corpo, mas a porosidade dos trânsitos que nele ocorrem. Começa com uma explosão e organiza-se com a lógica de uma manifestação. Vai enfileirando seus discursos, compondo um percurso que explora zonas geográficas distintas do palco, uma a cada vez. 

Em um lado, testam modos de conviver pela repetição; em outro, exploram a complementaridade; e vão espalhando, em aquis e acolás, acordos por sintonias, por espelhamento, por diálogo, com e sem hierarquias e comandos, nas mais variadas formas que constituem o viver junto.

Como não se trata de uma nova criação nos moldes que gestaram todas as outras, nesta, o exercício foi o de constituir uma dramaturgia dos assuntos, sem foco na expansão de vocabulário que os vem guiando. 

Nova linhagem. Na Croácia, a encomenda tinha um tema (a energia) e, mesmo abandonado, na montagem brasileira, contaminou estruturalmente a sua concepção. Essa característica, em termos artísticos, situa A Pele da Máquina em outra linhagem, da qual se saberá o futuro nos próximos trabalhos.

A encenação ficou enxuta e nela, a iluminação de Juliana Augusta Vieira se tornou o ponto forte. Sua luz atua como uma facilitadora, convidando o olhar para encontrar o que se passa, recusando-se a conduzir ou a sugerir qualquer tipo de ênfase. Apenas abre o espaço para que nele a coreografia aconteça.

Esta nova produção confirma a maturidade de um grupo que sabe enfrentar desafios.

A PELE DA MÁQUINA 

Centro Cultural São Paulo. Sala Jardel Filho. Rua Vergueiro, 1.000, Paraíso, 3397-4002. Sáb. e dom., 20 h. Grátis. 

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