A Pedra do Reino, de Ariano Suassuna, estréia na TV

Microssérie de Luiz Fernando Carvalho homenageia os 80 anos do autor

Agencia Estado

14 Junho 2007 | 17h58

Para marcar os 80 anos de Ariano Suassuna, estréia na Globo a microssérie A Pedra do Reino, dirigida por Luiz Fernando Carvalho. O Brasil que vê televisão aberta vai conhecer um dos personagens mais ricos de nossa literatura. Faz calor em São Paulo na manhã de sábado, mas no estúdio da Rua Monte Alegre, no bairro de Perdizes, Luiz Fernando Carvalho parece vestido como quem está no Pólo. Pesada blusa de lã de gola alta. "Peguei uma gripe de estúdio", ele explica. "Ontem (sexta-feira) tive febre alta." As más condições físicas não o impedem de entrar pela madrugada cuidando dos últimos detalhes da mixagem de som e música de A Pedra do Reino, sua microssérie em cinco capítulos, adaptada do romance de Ariano Suassuna, que estréia nesta terça, 12, na Globo, depois do Casseta & Planeta, por volta das 22h30. Os cinco capítulos, com duração variada de 42 a 50 minutos, vão ao ar até sábado, quando se comemoram os 80 anos do grande escritor (e pensador) brasileiro. A Pedra do Reino encerra uma fase e inicia outra na carreira de Luiz Fernando. Considerado o maior e o mais inovador diretor da TV brasileira, ele não facilita a vida de ninguém, nem a dele. Diz que não faz TV nem cinema, muito menos um híbrido dos dois. No caso de A Pedra do Reino, a que a reportagem do Caderno 2 teve acesso na íntegra, num total de 222 minutos de gravação, ele define seu trabalho como um corpo incompleto a que chama ‘organismo audiovisual dividido em cinco partes’. Só assim ele acha que se pode colocar na tela, com imagem e som, o universo labiríntico e encantado de Suassuna. Pedro Diniz Quaderna é considerado um dos personagens arquetípicos da identidade brasileira, como Macunaíma e Policarpo Quaresma. Quem é ele, para você? Desde que Suassuna escreveu seu romance, no começo dos anos 70, muita gente tem encarado o desafio de decifrar o significado desse personagem que se move num universo labiríntico e encantado. Ele tem esse caráter de arquétipo, no sentido junguiano, mas gosto de pensar em Quaderna como um brasileiro comum. Foi assim que me aproximei do romance e criei a microssérie. Ele é um brasileiro comum, cuja capacidade de sonhar me interessa resgatar e preservar. O brasileiro humilde tem de ser um sonhador. Senão, de onde ele vai tirar energia para pegar quatro ônibus, todo dia, para ir e voltar do trabalho, sofrendo todo tipo de pressão? Eu acredito no sonho, Suassuna também. É um brasileiro comum em termos, pois ele tem o sonho de ser o gênio da raça brasileira e imperador do Brasil. E você faz com que isso aconteça, porque no final ele é reconhecido pela academia por seus escritos, como ocorreu com o próprio Suassuna, que entrou para a Academia Brasileira de Letras. Sem dúvida, mas essa é a parte da história que tem a ver com a experiência do próprio Suassuna. E eu acho que não contradiz a outra. O artista como farol das aspirações do homem. Essa medida autobiográfica da Pedra não é segredo para ninguém. Ariano ficcionalizou episódios que foram muito marcantes na vida dele, como o assassinato de seu pai, durante a Revolução de 30. Eu diria que essa é a parte também autobiográfica do seu trabalho, da sua busca pela Pedra. Você também perdeu sua mãe muito cedo. Tinha 4 anos e foi uma coisa que também me marcou muito. Meu pai era carioca, minha mãe, nordestina. Nasci no Rio. Meu pai casou-se de novo, mas eu vivi sempre na nostalgia de minha mãe. Adulto, transformei essa busca numa fonte de inspiração artística. Tentei, e ainda tento, identificar na riqueza da cultura nordestina, a identidade de minha mãe. Antunes Filho fez uma recente leitura de A Pedra do Reino no teatro. Ele trabalhou no caminho da simplificação. Fez um espetáculo curto, de alguma forma minimalista. A sua Pedra, somados todos os episódios, tem 3h40 de duração e é barroca... O livro também é barroco e o que me interessa é justamente a riqueza e colorido das manifestações populares nordestinas. Como em Hoje É Dia de Maria, A Pedra integra diversas formas de representação. O multiculturalismo é que dá a medida, ampla, da microssérie. Você inicia com ela um projeto ambicioso, chamado Quadrante, voltado à descoberta do País. É um projeto antigo, que já tem uns 20 anos na minha cabeça. Dirigi novela na Globo, e uma novela de sucesso, O Rei do Gado. Mas eu não gostava daquilo, não me satisfazia. O bom diretor de novela tem de ser rápido e eficiente. Eu gravava aquelas 20/30 cenas por dia e me angustiava. Chegava em casa angustiado, achando que isso podia ser diferente, que aquilo teria de ser refeito para ser melhor. Afastei-me cinco anos da TV para fazer Lavoura Arcaica (NR - o filme adaptado do romance de Raduan Nassar). Voltei à TV para pagar dívidas, mas não queria fazer o trivial. Fiz Os Maias, que foi outro sucesso, e aí, antes que me propusessem as coisas, eu propus. Fiz Maria, 1 e 2, e agora estou iniciando o Quadrante. É uma série de adaptações de autores de diferentes regiões brasileiras - tem A Pedra do Reino, de Ariano Suassuna, que nasceu na Paraíba mas vive em Pernambuco; Capitu, uma releitura, pelo viés feminino, de Dom Casmurro, de Machado de Assis, carioca; Dançar Tango em Porto Alegre, de um escritor gaúcho tão maravilhoso quanto pouco conhecido, Sérgio Faraco; e Dois Irmãos, do Milton Hatoum, que é do Amazonas. Você imaginava começar este projeto pelo Suassuna ou foi para aproveitar a data redonda, os 80 anos dele? Foi a data. O próprio Ariano me disse - é a minha vez. Quero ser o primeiro, e não pela primazia. Sim, você tem razão, Sérgio Faraco é maravilhoso e pouco conhecido. Acho que me inclino para essas descobertas. Trabalho com autores consagrados, como Ariano e Machado, mas acho que até eles sofrem incompreensões. São respeitados, mais que entendidos ou desfrutados. Quadrante é um sonho antigo. É uma caravana que proponho para que a gente conheça o País, que, no meu entender, é muitas vezes desperdiçado por causa da visão centralizadora, que vem do eixo Rio/São Paulo. Como artista, sinto a necessidade de percorrer os espaços que formam a brasilidade, através de encontros com a mutiplicidade dos talentos locais. Essa é a minha alegria - me entregar ao mistério dos encontros com as literaturas de autores de diferentes Estados e os talentos locais. Vai nisso uma variedade muito grande de linguajar. A fala do nordestino é diferente da do gaúcho. A Globo inventou um linguajar nordestino, mas não sabe como tratar o gauchês, quando faz minisséries ambientadas no Sul. O linguajar nordestino também é falso. Não tem a ver com a linguagem real que venho tentando resgatar, admito que indo na contracorrente da própria emissora. Isso é uma coisa pasoliniana, assumida. Faço uma citação a Pasolini (NR - O diretor italiano Pier Paolo Pasolini) na Pedra, mas acho que a grande influência dele está na busca da poética contida na diversidade da linguagem. Isso está no cerne da Trilogia da Vida, que ele fez (NR - formada pelos filmes Decameron, Os Contos de Canterbury e As Mil e Uma Noites). Aquele Pálio nas cores vermelho, azul e dourado, quando o Juiz Corregedor entra na cidade, vem de As Mil e Uma Noites. Mas você também cita Luchino Visconti, por meio da música na cena em que aquele casal de estrangeiros conspira contra Quaderna e os nordestinos em geral. Por que você escolheu aquela cena para a sua homenagem? Visconti é meu mestre e existem duas citações a ele na Pedra. Naquela cena, uso a música de Franz Mahler para Morte em Veneza. Os personagens são estrangeiros, me parece que nazistas, pelo que eles propõem de branqueamento do homem brasileiro. O próprio Mahler foi acusado de nazista. Achei que seria adequado usar a música dele. O próprio vestido da mulher, com aquelas rendas, lembra Silvana Mangano, a mãe de Tadzio, em Morte em Veneza. Mas eu não encomendei à figurinista para parecer com ela. São coisas que já estão no nosso inconsciente, muito arraigadas. Visconti foi um artista total. Teatro, cinema, ópera. Seu trabalho não tem igual. Você faz cinema e TV, por que não ópera? Já me convidaram para dirigir uma opereta, mas eu disse não. Tenho muitas coisas para fazer, antes. E, depois, não quero dirigir ópera por dirigir, sem preparo, como tanta gente vem fazendo. É uma linguagem muito rica e complexa. Exige domínio cênico, conhecimento musical. Mas você domina uma mutiplicidade muito grande de recursos e linguagens - mímica, pantomina, dança, circo, cinema, televisão. Tudo isso já estava em Maria e volta agora na Pedra. Vou lhe dizer uma coisa, que acho que nunca disse. Acho que a Pedra vai fechar um ciclo, esse ciclo da representação teatral. A própria Pedra não existe, é uma representação, naquele estandarte. Sinto que estou me despedindo dessa representação. Pode ser, Ariano é muito diferente de Sérgio Faraco e você vai ter de reinventar sua linguagem. Machado poderá liberá-lo para a ópera. Existem várias referências a ópera no Dom Casmurro. Ele chega a dizer que a vida é ópera. Quem sabe...? Falamos em Pasolini e Visconti, mas Glauber também está presente. Me lembro de algo que li, um diálogo do Glauber com o crítico baiano Walter da Silveira, que lhe perguntava se a montagem de Terra em Transe seria barroca e Glauber diz que sim, porque ele era baiano e a cultura baiana é barroca. São todos artistas que carrego comigo. Estão na contramão dessa globalização que não é só política nem econômica, mas também é cultural. Na cena do lajedo, quando Quaderna desfralda o estandarte, o espírito de Glauber se apossa de você. Aquilo não é nem uma referência nem uma citação. Glauber está tão entranhado no nosso inconsciente que, quando Quaderna desfralda o estandarte e grita que quem não for brasileiro terá de ir para os EUA, aquilo é ele, só pode ser ele. A Pedra do Reino trata da luta pelo poder, mas narra uma saga familiar, sobre três irmãos, dos quais Quaderna será o cronista. Dois deles vão lutar pela herança. Pela própria escolha do ator, você toma partido por Sinésio (Paulo César Ferreira, com aqueles grandes olhos claros). A cena em que ele parte com a mulher é linda, mas minha cena favorita é a do encontro de Sinésio e Cristiano, o terceiro irmão. Sinésio vem de sina. Ao se transformar no ‘prinspo’ alumiado, ele encarna o sebastianismo, que é forte na nossa cultura, o mito do eterno retorno. Mas não sabemos se Sinésio vem para libertar o povo ou como um marionete dos poderosos. A cena em que ele parte com a mulher é linda, sim. Não estou mais nessa de ficar me preocupando com a beleza da imagem, da fotografia, da música. Entendo que você está falando do sentido da cena. Mas a mais forte, para mim, na Pedra, é o confronto do outro irmão Arésio (Luiz Carlos Vasconcelos), com o guerrilheiro, que quer capitalizar o ódio dele para a luta pela libertação dos oprimidos, mas Arésio está mais centrado na sua luta pelo poder, pela herança. Aquilo é uma tragédia. Não creio que exista outra cena forte como aquela na TV, nem no cinema brasileiro atual. Pensar A Pedra só como espetáculo circense/audiovisual, seria empobrecedor. A política é essencial em Ariano como na adaptação. É como se você aspirasse a uma síntese do Brasil. Não é bem uma síntese, é mais uma proposta de discussão, de busca do entendimento sobre quem somos nós. A síntese só virá pela multiplicidade cultural proposta no Quadrante, quando ficar ponto. Acho que nem aí. Poderemos nos entender melhor, quem sabe, encarar os desafios da nossa identidade, mas o Brasil é muito vasto, muito rico. Temos de ser unos na nossa multiplicidade. Qualquer tentativa de visão centralizadora, principalmente do eixo Rio/São Paulo, só tende a nos empobrecer.

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