''A peça apresenta uma lição de cidadania''

Autora de ensaios consagrados, Barbara Heliodora é, aos 87 anos, uma das principais especialistas na obra de Shakespeare, sobre a qual fala nessa entrevista, realizada em sua casa, no tradicional bairro do Cosme Velho, no Rio de Janeiro.

Ubiratan Brasil / RIO, O Estado de S.Paulo

26 de maio de 2011 | 00h00

Por que parece ser difícil montar A Tempestade?

Porque o tom da peça é leve, mas o conteúdo é sério, o que desnorteia alguns encenadores. Trata-se da última das quatro peças finais de Shakespeare, classificadas como romance. E seu conflito, se fosse escrito no período trágico de Shakespeare, terminaria em tragédia. Mas, por se tratar dessa fase de romance, há um final conciliatório, diferente de Romeu e Julieta, por exemplo, que é de um momento anterior.

A visão da crítica sobre Próspero modificou ao longo do tempo: primeiro era um sábio; depois foi encarado como um mero colonizador.

Com certeza, mas se trata de um ser humano com todos os seus defeitos que, dependendo da situação, são mais ou menos ressaltados. O importante é que ele amadurece no final da história e perdoa. Essas visões distintas aconteceram também por conta da impressionante quantidade de usurpações presentes na trama. Próspero está na ilha porque foi traído pelo irmão. Os náufragos também planejam tomar o trono de Nápoles. Ferdinando, pensando que o pai já morreu, usurpa o trono. E Calibã acusa Próspero de ter tomado a ilha. A peça fala muito de governança, um conteúdo bem expressivo de Shakespeare. Até metade do século 20, todas as comédias (inclusive A Tempestade) eram consideradas tolas. Assim, Shakespeare, que apresentava um sólido pensamento ao escrever peças históricas e tragédias, parecia que deixava de pensar ao tratar de comédias. Mas os princípios continuam os mesmos: a preocupação da governabilidade, por exemplo, aparece em todas as comédias. É uma ilusão achar que tudo está bem.

Próspero traz a síntese do que Shakespeare pensava sobre o relacionamento do homem com os outros, o poder, a natureza e até consigo mesmo.

Em Shakespeare, um detalhe é básico: quem tem poder também tem uma cota de responsabilidade correspondente. Ou seja, pretende-se um mundo melhor, mas isso só se alcança coletivamente. É uma lição de cidadania. Basta, aliás, notar como é grande a incidência da palavra "liberdade" no texto.

Um tradutor deve se aventurar ao lidar com o texto de Shakespeare?

Penso que não. Ele é perfeito na transcrição dos sentimentos. Qualquer acréscimo desnecessário só vai prejudicar.

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