A paz, olhando o Rio Paraguai

O suco de tamarindo é espesso e me lembra os sorvetes do Kawakame em Araraquara; fortes, perfumados, pura polpa. A mesa é farta. Arroz de carreteiro, torta de carne-seca, farofa de carne-seca, torta de milho salgada, torta de banana. Comida forte, síntese da que os cavaleiros pantaneiros levavam quando no rodeio a céu aberto, iam buscar o gado. As mesas fartas encerravam, a cada manhã, o Quebra Torto no Sétimo Festival América do Sul que junta literatura, teatro, cinema, artesanato, música, artes plásticas e dança, a cada ano, realizado pela prefeitura da cidade, pelo governo do Estado e que tem ainda a curadoria compartilhada do Memorial da América Latina. A cada dia, durante o Quebra Torto, uma fala. Zuza Homem de Melo fascinou com uma aula sobre Chico Buarque de Holanda, durante a qual a assistência, que lotou o pátio do Moinho Cultural Sul-Americano (uma antiga fábrica, hoje centro cultural), cantou junto. Uma curta história do Brasil e da música popular.

Ignácio de Loyola Brandão, O Estado de S.Paulo

07 de maio de 2010 | 00h00

Depois, ouvi histórias pantaneiras por um pesquisador-contador cheio de humor, o Antonio César Proença. No mesmo dia, uma surpresa, o reencontro com Hilton Viana, que era um amigo desaparecido. Hilton foi cronista de teatro, é ator, professor e hoje declama, uma arte cada vez mais rara. Há mais de 30 anos não nos encontrávamos. No último dia, foi Vicência Bertãs Tahan quem se ocupou de Cora Coralina que lançou o livro Cora Coragem Cora Poesia. Vicência é filha de Cora.

Quebra Torto, para quem não sabe, e eu me incluía nesse grupo, é o café da manhã, o almoço, o desjejum do pantaneiro. Ao sair em busca do gado, ele montava a cavalo com a matula. As distâncias no Pantanal são inconcebíveis para nós. Cavalgar dez horas é um nada. O tempo e as distâncias são algo à parte nesse mundo onde a pressa é inútil. Depois de horas e horas, o cavaleiro, cansado, começava a se alquebrar e ia se entortando. Então, estava na hora de desentortar. Hora do Quebra Torto.

Corumbá, divisa com a Bolívia, tem 232 anos, e já foi considerada o terceiro porto da América Latina. Mas a chegada da Estrada de Ferro Noroeste quebrou a navegação fluvial e a cidade entrou em decadência. Vem se recuperando com o tempo. Ainda encontramos por toda a parte resquícios de uma arquitetura faustosa, dos tempos da opulência. Principalmente na zona do porto, muitos casarões começam a ser restaurados. Um dos mais bonitos é o antigo edifício Wanderley & Bais, que foi casa importadora e exportadora de alto calibre, nela se implantou o Museu de História do Pantanal, tecnologia de ponta, que merece uma visita. Durante o festival, pudemos rever parte das obras Humberto Espíndola, nome maior das artes plásticas do Brasil, com seus temas ligados à sua raiz, o Mato Grosso. Humberto é habitué da Bienal de São Paulo, de Veneza e passou pelo MoMA em Nova York.

Entre 28 de abril e 2 de maio, a cidade viu 35 filmes nas mostras de cinema (uma tela estava em plena Praça Independência) e também peças teatrais, shows de Simone, Marina Dalla, Frejat, Diogo Nogueira, Roberta Sá, Monobloco. Renato Teixeira fechou o festival. Autores, ensaístas, professores vieram de todo o País e do Uruguai, Paraguai, Argentina, Bolívia, Peru, Chile. Palestras, seminários, conferências, workshops, tudo é aberto, todos participam, e essa é a grande jogada desse festival. Há completa interação com a cidade, com a região, com o país vizinho. Nada é cobrado e cultura é isso, coisa aberta a todos, nada de elitismo. Ouvi uma emocionante orquestra e um coral em que crianças do Brasil e da Bolívia se misturavam, algo que me lembrou a famosa Orquestra paulistana de Heliópolis.

Cidade quente. Do alto, avista-se a Bolívia. Há aqueles que correm para o lado de lá para fazer compras. Precisa se informar antes, porque os paros são frequentes. Quando há um paro (paralisação em algum setor), a fronteira é fechada; e fecha com frequência. Em frente dos melhores hotéis vemos as bolivianas com seus artigos típicos, suas saias rodadas e coloridas. Os povos se entendem entre si, os governos é que complicam. Não se surpreenda se ao ouvir o corumbaense falar achar que é um carioca. Puxam o S, sim. Mas é que a influência é toda do Rio de Janeiro. Para lá é que os jovens vão, quando querem estudar ou mudar de vida. De lá vem a influência da Marinha, Aeronáutica e Exército, que formam as forças de fronteira. Num dia, o maior sufoco, o ar parado, a boca seca. No dia seguinte, o céu fecha e vem uma brisa fresca, esfria à noite. Em frente do centro de convenções, onde falei, passa o Rio Paraguai, correndo em direção à Bacia do Prata. Corre lento. Na tensão que antecede uma conversação com o público, fiquei ali olhando, tranquilo, a tarde caindo, me concentrando, enquanto passavam enormes ramos de camalote, erva aquática, que as artesãs usam para fazer chapéus e outros acessórios. Quando entrei na sala para falar, estava em paz.

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