A pátria em Copas

A lembrança mais antiga que eu guardo de uma Copa do Mundo é reconstruída da perspectiva do banco de trás do Consul 1950 de meu pai. Paramos no pedágio a caminho da fazenda de meu tio e meus pais perguntaram se o funcionário sabia o placar do jogo. Não sei se havia um rádio na cabine do pedágio. No carro, certamente não havia. O ano era 1958 e eu, bem pequena, adorava o clima de excitação que reinava entre os adultos. Na fazenda em que passávamos as férias, de inverno meu avô improvisou uma antena de bambu comprida e torta para tentar ouvir as partidas em ondas curtas. O mundo era muito grande em 1958. A Suécia era inacessível. A locução dos jogos, naquela voz fanhosa, acelerada, impossível de acompanhar, chegava a nós através de roncos e chiados que soavam como a respiração nervosa do Oceano Atlântico. Do outro lado do mundo, Garrincha, Pelé e Vavá vingavam o Brasil da derrota de 1950. Como é possível que uma criança, que mal sabia o que era um drible e ignorava a existência metafísica do impedimento, participasse do sentimento oceânico que tomava conta do País durante a Copa do Mundo?

maria Rita Kehl, O Estado de S.Paulo

12 de junho de 2010 | 00h00

Num domingo, logo depois do almoço, meu padrinho passou 45 minutos agachado, com o ouvido colado à tela do alto-falante da rádio vitrola. Quando o jogo acabou e a tensão diminuiu, ele ficou esticado no chão suando frio, com taquicardia e falta de ar. Ninguém se preocupou a ponto de carregá-lo para um pronto-socorro. Foi o nervoso, disse minha mãe, e a coisa ficou por isso mesmo. A segurança não era tão importante em nossas vidas. Arriscava-se mais. Vivia-se menos?

Isso foi durante a copa de 62, quando um menino chamado Amarildo substituiu Pelé, afastado por causa de uma contusão, e surpreendeu o mundo. Nunca mais soube desse jogador, nem ouvi falar em ninguém que se chamasse Amarildo.

As Copas do Mundo precediam as férias de julho. O céu de São Paulo ficava muito alto nas tardes limpas de frio, quando ainda não se falava em inversão térmica. Com os jogos da Copa chegavam as festas juninas; eu ganhava um conjunto novo de banlon. As imagens dos lances mais importantes só vinham depois, estampadas em cores nas revistas semanais. Em julho de 1962 a capa da Cruzeiro ou da Manchete trouxe as fotos de quatro grandes esportistas brasileiros: Pelé, Eder Jofre, a tenista Maria Esther Bueno e um iatista cujo nome me esqueci. O Brasil em 62 era uma promessa que não se cumpriu.

Da derrota precoce de 66 eu só me lembro do silêncio que ficou em casa, em São Paulo, no mundo, quando o jogo contra Portugal terminou em 3x1. A expectativa de algumas alegres semanas de torcida deu lugar ao súbito vazio. E agora? Com que cara o País vai voltar à vidinha normal? A normalidade era triste depois de 1964.

Para quem não entende de futebol, a televisão veio a calhar. A Copa de 1970, transmitida ao vivo do México em branco e preto, foi o momento da maior emoção futebolística da minha vida. Talvez aquele ano tenha inaugurado o protocolo nacional da torcida durante as Copas, que incluía desde grandes reuniões de amigos para ver os jogos na casa de quem tivesse o melhor aparelho de tevê (a cerveja comparecia, mas ainda não tinha se tornado obrigatória), até as manifestações de rua com direito a buzinaço e patriotadas inconsequentes, que naquele ano foram faturadas pelo marechal de plantão, o truculento Garrastazu Médici.

Hoje quem fatura é a Ambev. Foi triste a decepção dos bombeiros de São Paulo que levaram um carro enfeitado para receber o time vitorioso em 2002, mas voltaram de mãos abanando quando os jogadores decidiram prestigiar o caminhão da Brahma.

Não sei se foi a cumplicidade entre a indústria do esporte, as grandes marcas e o ufanismo generalizado que caracteriza a cobertura jornalística monopolizada pela TV Globo que estragaram a expectativa que antecedia os períodos de Copa do Mundo. Se até 1970 as vitórias do Brasil foram marcadas por lances de surpresa, revelações e pequenas epifanias pagãs, depois do tricampeonato, as seleções passaram a carregar o peso da obrigação de ganhar. Não posso generalizar minha experiência de torcedora amadoríssima. Mas sinto que a insistência em antecipar todas as futuras jogadas geniais, mais a pré-fabricação do carisma, do sex appeal e da grife de cada jogador escolhido, roubaram grande parte do prazer de ver esse esporte que, segundo José Miguel Wisnik, alia no Brasil os improvisos do circo, o prazer da molecagem e o espírito da tragédia. Ao analisar a história do Brasil nas Copas em seu espantoso livro Veneno Remédio, Wisnik refere-se à excessiva autoconsciência que tomou conta dos jogadores e de suas jogadas mais características, a partir de 1982.

Autoconsciência não só dos jogadores, mas também dos torcedores. Hoje é impossível fugir do protocolo a ser seguido por todo brasileiro em casa, nos bares, nos estádios. Aprendemos pela tevê, com meses de antecedência, como devemos nos vestir, o que beber durante os jogos, quais os gestos e os gritos de guerra apropriados para os momentos mais emocionantes, como pular e dançar depois de um gol do Brasil. Tudo dominado, tudo decodificado. Resta esperar por alguns improvisos geniais que ainda possam nos transportar do ufanismo compulsório a momentos de legítima alegria.

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