A Pátria e a Dinastia

Os últimos acontecimentos demonstram eloquentemente que o governo atual, apeado ao terreno infecundo dos expedientes, abandonou consciente da própria esterilidade a verdadeira política, desviando de todo o seu espírito da elaboração elevada das verdades sociológicas imediatamente, adaptadas à direção positiva da nossa nacionalidade. Ignorante, diante das noções mais rudimentares do direito constitucional e além disto profundamente incompatibilizado com o elevado destino da política americana, a sua posição até então indefinida - perante a civilização - começa a assumir um caráter nimiamente agressivo. No entretanto, nenhuma quadra melhor se apresentaria a receber o influxo, a ação poderosa de uma política francamente progressista que aproveitando e orientando racionalmente a vitalidade da Pátria, criasse, através da comunhão necessária dos interesses a grandiosa harmonia, a ligação indispensável de seu futuro ao de suas coirmãs da América. Nada disto, porém, sequer intentou realizar.

10 de abril de 2009 | 23h33

 

Erguido ao poder a fim de ser, felizmente, o redator autômato da vontade popular, literalmente expressa no decreto de 13 de Maio; coagido pela própria evolução da sociedade - a ser grande; orientado - quando devia orientar; nivelado, quase involuntariamente, às ideias de seu tempo - o governo não soube ou não quis aproveitar a grandeza ocasional em que se achou e longe de seguir o único programa civilizador de que pode dispor - conservar melhorando -, emergiu agora da inércia em que deperecia, para implantar no seio da sociedade, que lhe confiou o futuro, abruptamente, uma apreensão séria que se refletirá do modo mais deplorável, em todos os ramos de sua atividade. Como explicar esse imprevisto movimento de armas, agora - em que se devia iniciar a convergência de todas as atividades para a luta prodigiosa da paz e do trabalho?...

 

Não acreditamos que seja uma medida de ordem puramente administrativa - nem que o governo inspirando-se nas teorias do eminente criador do poder moderador - pretenda entregando aos cidadãos armados, à guarda nacional, a segurança interior do estado, investir a força arregimentada de sua verdadeira função que é defendê-lo no exterior. Esta medida seria precipitada sobre ser extemporânea. A guarda nacional é entre nós um mito - e que o não fosse pior ocasião não se poderia apresentar, para esse movimento assustador de dez mil baionetas na direção de uma fronteira - já de si fortalecida pela debilidade da nação limítrofe.

 

Se pretende fazer sentir nos destinos das nacionalidades em litígio a sua influência, no peso da espada de um marechal ilustre - patenteia um triste retrocesso mental, fere de frente o direito constitucional, que negando-lhe a faculdade de declarar a guerra impede-lhe, portanto, de originar-lhe causas e indica limpidamente ter a mentalidade trancada ao maior ideal da política moderna, feito pela sistematização de todos os princípios generosos, em que a supremacia mental inspira e onde a fortaleza das ideias concorre vitoriosamente com o frágil vigor das espadas. Colocou, além disto, de um lado ou doutro dos próximos beligerantes, ou entre ambos, dez mil homens, dez mil temperamentos, expostos a todas as emoções, à magia e às esperanças da glória e dos combates - é ocasionar a guerra, o estéril dispêndio no exterior - agora - em que assoberba-o, crescente, no interior - a anarquia econômica!

 

Pretenderá dar ao nosso século - o escândalo de uma guerra de conquista?... Acreditamos que não. A causa, a verdadeira causa talvez - da ação teatral do governo - já está de há muito desvendada.

 

Sentindo desaparecer dia a dia, o automatismo que por tanto tempo aniquilou a orientação digna da maioria dos atos da sociedade brasileira; compreendendo, diante do espírito nacional vigorosamente alentado por novas aspirações, a fragilidade do cômodo regime que o sustenta; notando - o que é mais sério - que a fronte do soldado, banhada nas correntes iluminadas do espírito contemporâneo, ousava cometer um delito, não previsto pelo conde de Lippe - racionar, o que transmudava-o numa força, força que se traduzia num movimento desassombrado e harmônico com o da sociedade; temendo, sobretudo, esse consórcio do pensamento com a espada - aliança que coloca esta ao lado do futuro e da liberdade - o governo resolveu antepor à política da Pátria a política imperial. E adotou a norma banal de dispensar para enfraquecer. Dispensa o exército, e tendo-o assim, não podendo destruir-lhe no cérebro a noção digna que começa a ter do futuro - excita-lhe a ambição com a imagem encantadora de futuras glórias. Santa ilusão, porém, em tudo isto!...

 

Desiluda-se o governo. A civilização é o corolário mais próximo da atividade humana sobre o mundo; emanada imediatamente de um fato, que assume hoje na ciência social o caráter positivo de uma lei - a evolução - o seu curso, como esta, é fatal, inexorável, não ha tradições que demorem-lhe a marcha, nem revoluções que a perturbem - tanto assim é que atravessando o delírio revolucionário de 93 e tendo pela frente - impugnadora - a espada de Bonaparte, onde irradiavam as gloriosas tradições do maior povo do mundo - emerge-o tranquilo no vasto deslumbramento do século XIX.

 

Desiluda-se pois, o governo; a evolução se opera na direção do futuro - e quer o governo queira, quer não, embora voltado para o passado, caminhará com ela, para a frente, mas como os covardes - recuando.

 

Euclides da Cunha

 

(Publicado no jornal "O Estado de S.Paulo" em 22 de dezembro de 1888, pág. 1)

Mais conteúdo sobre:
Euclides da Cunha

Encontrou algum erro? Entre em contato

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.