A pátria do poeta: a de sempre

Publicado há 30 anos, no início do fim da ditadura militar brasileira, Que País É Este?, poema-protesto do mineiro Affonso Romano de Sant'Anna ganha nova edição, que convida a refletir sobre o Brasil

José Nêumanne, O Estado de S.Paulo

10 de julho de 2010 | 00h00

É difícil editar poesia no Brasil, com muitos analfabetos funcionais, raros leitores e população de renda baixa. A reedição de Que País É Este?, de Affonso Romano de Sant"Anna escapa a esta lógica do mercado editorial talvez por resultar de uma moda gerada por interesses do consumidor em potencial por algo que tem conexão com seu cotidiano. Entre a primeira edição e esta muita água passou por baixo da ponte e, ao contrário do que constatou Heráclito de Éfeso, parece continuar sendo o mesmo rio a transportar matérias idênticas às de 30 anos atrás.

O poema que dá título ao livro e justifica sua republicação foi escrito num contexto e sua republicação agora se dá em outro, oposto só na aparência. Em 1980, quando ele surgiu numa página inteira do Jornal do Brasil, o País vivia o refluxo da distensão democrática lenta e gradual da ditadura militar, bandeira da eminência parda do ex-presidente Geisel, Golbery do Couto e Silva. Sob Figueiredo, o regime parecia não perceber, mas seus dias estavam contados pela ação política dos exilados que voltaram com a anistia ampla, geral e irrestrita do ano anterior e com a descoberta da força política dos trabalhadores manuais liderados por um metalúrgico que adotou como sobrenome o apelido Lula. A direita, inquieta com a possibilidade de a esquerda tomar o poder, matava inocentes em atentados e a autoridade, perplexa, preferia pôr luvas em suas mãos assassinas a ter de investigar e punir seus delitos. Agora, não! Lula não é mais um dirigente sindical, mas o político mais habilidoso e o presidente mais poderoso que o Brasil já teve desde o desembarque do governador Tomé de Souza numa praia baiana. E a volta por cima dos esquerdistas extremistas derrotados na guerra suja contra as Forças Armadas ameaça ocorrer sob a égide de uma ex-guerrilheira tarefeira, praticamente sem passado, com as bênçãos do padrinho, um dos heróis da reconstrução da democracia naquele tempo de trevas.

Para voltar a lume, o poema do erudito mestre-escola fez uma caminhada árdua e cheia de rampas de subida e descida e curvas para ambas as direções. O hino da Nação torturada virou melô da parcela da sociedade civil emparedada pelos índices monumentais de aceitação da nova democracia de massas, em que o povão pôs as mãos no bastão e resolveu não largá-lo, ainda que expondo a velha democracia liberal aos riscos do populismo sem freios e sem pejo. O texto percorreu os meandros da rede mundial de computadores e foi sucesso de leitura por se queixar do "eterno retorno", ou melhor, do bis da velha história - a tragédia tornada farsa - na leitura de Hegel, inspiração de Marx. E se investiu de tons de protesto contra a permanência do que só não volta porque nunca foi.

A oportuna reedição do poema em voga e dos outros que compõem a coletânea com que ele galgou prateleiras põe definitivamente em xeque essa lorota boa de "nunca antes na História deste país", refrão favorito do líder grevista de 1980, que se tornou padroeiro protetor da escória política que sempre se beneficiou individualmente do sacrifício da maioria. O sucesso merecido e repetido dessa ode à permanência do Brasil eterno e profundo por baixo da superfície dos movimentos sociais, das ambições políticas, das convicções ideológicas e das conveniências partidárias deixa claro que o verdadeiro lema deste Brasil não é o mote lulista, mas o ancestral provérbio popular que sempre rezou: "tudo como dantes no quartel de Abrantes". Culto exegeta das formas poéticas e hábil manipulador de mistérios e misérias da palavra, o poeta e professor universitário mineiro transita tanto no poema quanto no livro todo pelo território ocupado pelo romântico Antônio Frederico de Castro Alves no século 19. E vai além, por ter aprendido com as próprias desilusões que nem a praça pertence ao povo nem há condores em nosso céu.

Não que Sant"Anna tenha abdicado da ingenuidade, sem a qual a poesia fenece em mesmice tola. Da geração que velou, bestificada, a morte das ilusões depois do golpe de 1964, ele mantém a dicção engajada e, portanto, eivada de esperanças nos versos que compõem uma obra indispensável para quem quiser saber que País é este: não é o Brasil de Figueiredo ou o de Lula, mas a Nação geral de Minas e do Grão Pará, dos pampas e das caatingas. A poesia de mestre não se permite enganar por ideias nem se deixa errar pelos desvios desvairados do lirismo alienado. O livro fez sucesso no fim da ditadura e hoje anima a esperança de quem não quer entregar de graça o País à vingança de ex-guerrilheiros derrotados manu militari ou à cobiça sem limites de politiqueiros de todos os partidos, todas as correntes e todas as regiões por estar plantado em chão seco, áspero e rochoso. Com cheiro de sol, suor e cachaça, a poesia de que é feito traz a permanência desta terra, na qual em se plantando nem tudo dá, ao contrário do que previu nosso primeiro redator e cartomante, Pero Vaz. E a traduz na forma com que a palavra a eterniza.

Esta eternidade não se conserva em gelo estéril, mas na paixão ardente cuja chama ilumina a compreensão do que se passa atrás da cortina e além dos fatos. O poeta narra recorrências, não ocorrências. Seu protagonista não é o rebelde que ascendeu ao topo do pódio, mas o estofo de que se fazem frustrações, motivações e crenças da boa ou má gente que forma o conjunto que chamamos de pátria. O fogo fátuo da palavra reduz casos e feitos ao mínimo denominador comum da arte de decompor fatos e tratos, despidos de conveniências e referências usadas somente para disfarçar. Aqui o estro supera o conhecimento e o talento do autor se manifesta na descoberta da matéria que resiste ao tempo, não por se ter estratificado, mas por haver rasgado todas as máscaras que precisou arrancar para se manter intacta e nua. Este país de novo de Sant"Anna é o de sempre. Por isso, surpreende, comove e encanta.

JOSÉ NÊUMANNE, JORNALISTA E ESCRITOR, É EDITORIALISTA DO JORNAL DA TARDE E AUTOR DE O SILÊNCIO DO DELATOR (A GIRAFA EDITORA)

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