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Werther Santana/Estadão
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A patologia nacional

Advirto que nenhum morto morre sozinho. Com ele, morrem no mínimo dez ou mais pessoas de modo direto e, indiretamente, uma multidão de outros corações que exigem respeito, solidariedade e compaixão

Roberto DaMatta, O Estado de S.Paulo

23 de junho de 2021 | 03h00

Se não existe sociedade perfeita – como adverte Claude Lévi-Strauss –, é necessário entender as nossas doenças. E, se é bíblico jogar pedras nos outros, foi preciso um presidente com a compulsão de jogar pedras em todo mundo para que ele acabasse com a cabeça quebrada pelo meio milhão de mortos, vítimas da sua política de sabotar vacinas. 

Tudo o que vai volta. E a horrível experiência de Bolsonaro é da responsabilização de um boicote orquestrado e criminoso de vacinas. Se a antropologia social não é muito animadora quando confirma que toda coletividade tem problemas, ela mostra que não há sistema fundado na mentira, na malandragem, na má-fé e no negacionismo.

Do mesmo modo que as sociedades humanas (tribais ou nacionais) demandam território, elas exigem coerência moral. Não há como combinar democracia com hipocrisia e com uma rejeição absurda de uma doença por um governo federal eleito com o compromisso de acabar com a velha política que hoje sucumbe pela patologia de um cancro conhecido pelo nome de despotismo. Jair Bolsonaro foi feito presidente para cumprir um programa democrático que o seu atávico familismo tem ostensivamente negado. A tragédia é a morte de 500 mil pessoas por uma pandemia claramente sabotada. 

Não há sistema sem trocas. Mas convenhamos que comprar e vender seres humanos que, no regime escravocrata, viravam máquinas e animais e eram governados pela lógica do capital é um irrefutável negacionismo. No Brasil, o negacionismo dos costumes legitimou um estilo de vida que combinou – como disse um FHC sociólogo – capitalismo e escravidão, ambos legitimados por um catolicismo romano oficializado. 

Tal dissonância foi orquestrada, mas não deixou de ser algo incômodo no passado (Joaquim Nabuco e Machado de Assis testemunham tal aberração), e seus restos e rastros são hoje algo vergonhoso, porque negar o real é mais que um erro, é algo impensável, abusivo e, no limite, psicótico. 

O negacionismo que rompe com a sintonia entre meios e fins não é tampouco “jeito” ou teimosia. É, sejamos claros, demência e autoflagelação. Se, como diziam os velhos ideólogos do militarismo, a guerra não pode ser deixada a cargo de políticos interesseiros e levianos, não se pode deixar que um obstinado negador do princípio de realidade (aquilo que ocorre ignorando os nossos planos e vontades) continue como um aliado e uma quinta-coluna do vírus. Um sócio remido de uma pandemia que, graças a essa negação, matou, até o momento, 500 mil brasileiros.

Você já perdeu um filho, mulher ou irmão por incúria sanitária ou perseguição religiosa, étnica ou ideológica? Já viu num caixão um corpo amado transformado pelo mármore da morte? Advirto que nenhum morto morre sozinho. Com ele, morrem no mínimo dez ou mais pessoas de modo direto e, indiretamente, uma multidão de outros corações que exigem respeito, solidariedade e compaixão. Mas como sentir comiseração se o líder nacional não mostra o menor sentimento – se é que ele, além do narcisismo, tem mesmo piedade pelo próximo...

Não há, por certo, perfeição, mas não há, em nenhuma democracia honesta, presidentes – com uma vênia a Donald Trump – sabotadores de seus eleitores. A indiferença ao bom senso, a deslealdade interesseira, negacionista das obrigações eleitorais – a traição que é rotina na “política” brasileira – são nossas patologias. É a nossa doença mais ou menos clara dos governantes. Porque “politicar” virou desfaçatez e traição ocorre em nome do povo e dos pobres. Não é de hoje que a esfera política virou sinônimo de força bruta funcionalmente legalizada, permitindo todos os abusos em nome de fins jamais pronunciados.

Quando a delinquência é envolvida por uma pandemia renegada por quem está no poder, chegamos a esse meio milhão de mortos reveladores, ao fim e ao cabo, de nosso descaso por nós mesmos. Escrevo como perdedor já que faço questão de honrar as minhas perdas. É assim que o meu coração se solidariza com o dos sobreviventes das 500 mil vítimas. Um coração e uma alma que se envergonham de testemunhar um vírus sabotado pela onipotência e pelo egoísmo de um presidente que ficará na história como um traidor das promessas feitas solenemente ao povo que o elegeu.

Penso que não há religião, ciência ou arte capazes de resistir à nossa ética de insinceridade. Este país feito por um rei fujão, esta república sem republicanos fundada na escravidão. Este sistema permanentemente transformado pelos interesses de políticos e juízes formalistas, de generais subservientes e de um Estado explorador da sociedade. Enfim, de um país que, educadamente, confunde demência e incúria com negacionismo – esta patologia nacional. 

É ANTROPÓLOGO SOCIAL E ESCRITOR, AUTOR DE ‘FILA E DEMOCRACIA’

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