A passagem do tempo inspira Luis Arrieta

Próximo dos 60 anos, coreógrafo inicia novo ciclo

Helena Katz, O Estado de S.Paulo

29 de dezembro de 2010 | 00h00

Preparando-se para comemorar os 60 anos, que completa em setembro, o bailarino e coreógrafo Luis Arrieta encerra seu 38º ano de carreira com um balanço mais do que positivo: criou dois solos (Carnaval dos Animais e Tango Adeus), ganhou o Prêmio IBAC 2010, dançou dois trabalhos na Virada Cultural, remontou uma obra dos anos 80, e teve um livro sobre a sua vida editado pela coleção Aplauso, da Imprensa Oficial.

Em entrevista ao Estado, comenta que o horóscopo chinês identifica o período que está vivendo como o de uma recontagem do já feito para o início de um novo ciclo: "Foi um ano sui generis mesmo, penso que de revisão para um outro recomeçar".

As duas obras que apresentou simbolizam uma fase bastante especial no seu riquíssimo percurso, iniciado aos 21 anos, na cidade em que nasceu, Buenos Aires, e continuado quando veio para São Paulo, em 1974, para dançar no Ballet Stagium. "Na verdade, penso que a dança esteve sempre na minha vida porque desde criança dirigia as minhas irmãs nas nossas "produções". A dança e a minha vida se confundem, porque nunca soube fazer outra coisa."

Os dois solos nos introduzem ao seu atual momento. Em Carnaval dos Animais, a certa altura, diz: "como imitar com dignidade uma galinha se fui educado para ser cisne?". E assim, com leveza e bom humor, toca em questões complexas. Muitos bailarinos passam a vida pensando que dança é movimento, e movimento é transformação, mas não incluem nessa transformação aquela que acontece ao corpo quando ele envelhece. Arrieta transforma a síntese certeira contida nessa pergunta em um depoimento contundente: é a busca da dignidade que importa em todas as transformações e, para tal, deve-se ter consciência de que o tempo passa.

No outro solo, Tango Adeus, a sutileza começa no título, que ele também escreve como Tango a Deus e Tan go a Deus, já explicitando do que se trata. "Venho de uma família proletária, modesta, do sul do continente e, para nós, tango não se refere somente à música ou à dança, mas sim a uma origem que se manifesta em cada um de nossos gestos. Nem o tempo nem a distância me separaram desse tango, que continua aqui, no meu corpo gasto."

Quem o vê dançando, discorda do modo como se refere a seu corpo. Porque as restrições que se instalaram apenas possuem uma beleza muito especial, aquela produzida pela dignidade que emana dos grandes intérpretes. "Gosto muito do palco e o melhor que me aconteceu, nesse ano em que dancei bastante, ocorre fora dele. Reencontrei pessoas com as quais já tinha trabalhado que me disseram que agora leem melhor o que fiz. E não posso esquecer da alegria de me comunicar com públicos de todas as idades, sejam crianças, velhos, todas as gentes."

Joelhos. Foi também um ano em que Arrieta lutou com sérios problemas nos joelhos. "Aproveitei para me perguntar sobre o significado do que estava sendo retirado de mim, e pude descobrir que o corpo pode expressar-se bem com menos recursos. Depois de haver trabalhado brevemente com deficientes físicos, não poderia deixar de seguir dançando", disse.

Nesse ano singular, uma das atividades de Arrieta resume o atual período da sua vida. Trata-se da remontagem de Trindade, obra que havia criado em 1987 para a companhia do Palácio das Artes, em Belo Horizonte, e que refez para a Cia. Jovem do mesmo teatro. Refez o trio que havia composto para a música de Samuel Barber e, dessa vez, aos poucos, os bailarinos da jovem companhia vão sendo substituídos pelos da mais antiga. No final, ficam as duas bailarinas que representam toda essa história, Lina Lapertosa e Karla Couto, dançando com Arrieta.

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