A paródia de um clássico modernista, em nova edição

Nestes tempos em que a Semana de Arte Moderna de 1922 apaga suas 80 velinhas, toda e qualquer homenagem vale, até mesmo uma que não só beira, como mergulha, no escracho. Ou, melhor dizendo, na paródia. O romance Pinto Calçudo ou Os Últimos Dias de Serafim Ponte Grande, de Sérgio Augusto de Andrade, ganha uma reedição, desta vez pela Editora Globo. O livro terá noite de autógrafos hoje, às 20h, no Espaço Maria Pimenta (Rua Alvaro Annes, n.º 87 - tel. 3032-7313).Livro de estréia do autor, foi feito para participar de um concurso da Secretaria de Estado da Cultura em 1990, quando se comemorava o centenário de nascimento de Oswald de Andrade. Ganhou e foi editado então pela Siciliano. O romance faz gato e sapato de Serafim Ponte Grande, de Oswald de Andrade, livro que o megafone modernista escreveu entre 1925 e 1929 e publicou em 1933. É um texto que ficou nos anais experimentais da literatura brasileira, no qual Oswald usou a técnica narrativa da colagem, com poemas, pedaços de crônicas, diário, reportagem fingida etc.O livro de Sérgio Augusto é, pois, a paródia da paródia oswaldiana. Coloca como protagonista Pinto Calçudo, ou José Ramos Góis Pinto Calçudo, que surge no capítulo No Elemento Sedativo do original modernista, ao lado de Serafim, no navio Rompe-Nuve. Depois brigam, com Serafim jogando Calçudo ao mar e depois expulsando-o da repartição (Federal de Saneamento) em que trabalham. Pinto Calçudo, por fim, aborda um navio, o El Durasno, e ali funda uma sociedade "priápica" e faz uma viagem pelo mundo que não tem porto de chegada.No texto atual, surgem os mesmos personagens e o estilo ágil e telegráfico de Oswald de Andrade, com a idéia geral de promover a vingança de Pinto Calçudo, que agora dá sua versão do que aconteceu. Um personagem de Serafim Ponte Grande, Machado Penumbra é uma espécie de consciência crítica de tudo.O humor de Sérgio Augusto de Andrade é eficiente e serve de molho perfeitamente adequado para sua salada oswaldiana. O seu é um livro raro na literatura brasileira de hoje, tão chata e incapaz de rir de si mesma. O oposto dos tempos risonhos e francos da Semana de 22.

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