A parceria de Marguerite Duras e Resnais

O trabalho de roteirista da autora de O Amante - que morreu há 15 anos - em Hiroshima Mon Amour foi destaque no caderno

P.E. SALES GOMES, O Estado de S.Paulo

26 de fevereiro de 2011 | 00h00

Nuit et Brouillard foi exibido em São Paulo durante o Festival "Historia do Cinema Francês" organizado pela Cinemateca no quadro da ultima Bienal. Essa quinta fita de Alain Resnais é, como todas as outras, com exceção de Hiroshima mon amour, uma curta-metragem. O comentario falado teve, em Nuit et Brouillard, um papel tão grande que a seu proposito um critico francês, Armand Cauliez, optou definitivamente pela não inclusão do cinema entre as artes visuais. Resnais encomendou o texto dessa evocação dos campos hitleristas de extermínio ao poeta Jean Cayrol, antigo deportado em Mathausen e autor dos "Poèmes de la nuit et du brouillard". Embora de alta qualidade, as palavras de Cayrol cingem-se estritamente ao comentario das imagens. Nota-se mais exaltação e liberdade artistica nos registros documentais da fotografia do que no texto que as acompanha. Esse pudor verbal parece o resultado de um calculo sabio, pois assegura maior enfase á terrivel eloquencia das imagens. O papel da musica como cimento entre o conteudo visual e as palavras é muito importante em Nuit et Brouillard, mas não é facil configurá-la em uma audição. (...)

Alain Resnais costuma recusar modestamente o qualificativo de autor cinematografico. Um de seus argumentos é que a totalidade de suas realizações foram suscitadas por encomendas. Pelo visto jamais ocorreu que Resnais tomasse a iniciativa de ir procurar um produtor com uma determinada idéia. Entretanto, as condições em que "aceita encomendas" são tais que lhe permitem exercer o seu poder criador sem embaraços. Recebe ele diversas solicitações para filmar, o que lhe faculta uma ampla margem de escolha e atenua bastante o conceito de encomenda. Além disso, os produtores que o contratam sabem de antemão que ele exige absoluta liberdade de ação. A unica coisa que Resnais prometeu aos financiadores de Hiroshima Mon Amour foi realizar um filme ligado (...) ao horror da guerra atomica.(...)

Na realidade, após ter aceito a encomenda para realizar um filme a respeito das atrocidades da bomba atomica, Alain Resnais teve momentos de grande perplexidade. O projeto que ideou aproximava-se demais, como concepção, de Nuit et Brouillard, e não o entusiasmava muito voltar a um terreno de criação já percorrido. O encontro com a escritora Marguerite Duras, a quem Resnais confiara as suas duvidas, foi decisivo. Hiroshima Mon Amour nasceu e foi delineado durante a longa conversa que mantiveram sobre a possibilidade de uma obra em que os personagens participariam da tragedia apenas através da memoria, e não diretamente.

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