Ben Ducha/ unsplash
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A pandemia vai nos tornar pessoas melhores? Provavelmente não, mas poderá nos mudar de outras formas

Mesmo que estivéssemos dispostos a usar este tempo como uma chance de autoaprimoramento, é difícil saber se ou como a pandemia poderia realmente nos afetar agora ou nos próximos anos

Roxanne Roberts, The Washington Post

06 de maio de 2021 | 15h53

Aqueles de nós que tiveram a sorte de sair ilesos do ano passado - fisicamente, mentalmente, financeiramente - tem muitas razões para mostrar a sua gratidão. Teoricamente, poderíamos usar esta experiência para tornar-nos mais fortes e determinados, menos propensos a julgamentos e reativos. Poderíamos apreciar mais e criticar menos. Poderíamos em uma palavra, ser melhores.



Ao longo de toda a pandemia, ouvimos inúmeras histórias destinadas a nos tornar menos negativos celebrando os trabalhadores essenciais, encorajando as iniciativas locais, apreciando o que temos - iluminando os nossos anjos melhores. Há um ano, Kelly Ripa disse ao jornal The Washington Post : “Acho que todos nós seremos melhores por causa disso,” porque “todos estamos nos satisfazendo com menos”.

Mas, se os especialistas das áreas de história e ciência podem servir de orientação, este altruísmo provavelmente não irá durar. É mais provável que deixemos isto para trás assim que possível, para entrar novamente na vida de cabeça e forçar limites. Quando muito, estaremos pelo menos preocupados com o que os outros pensam. Carpe diem, baby. 

Dorothy Paredes, 42 anos, residente em Austin, conviveu com um câncer nos últimos 15 anos. A pandemia não a mudou fundamentalmente - no mínimo a deixou mais determinada a desfrutar de cada dia. “Ela me fez afirmar: ‘A vida é curta, as coisas podem acontecer - câncer, covid, o quer seja”, ela disse “Por que estamos esperando? Por que estamos hesitando?” 

Se o passado serve para uma espécie de prólogo, a epidemia mortal de influenza de 1918 e 1919 deveria ter-nos ajudado a compreender como navegaremos nos anos pós covid. “Acho que é justo afirmar que as pessoas irão querer esquecer o mais rapidamente possível”, disse Laura Spinney autora de Pale Rider: The Spanish Flu of 1918 and How It Changed the World  (Cavaleiro pálido: A Gripe Espanhola de 1918 e Como Ela Mudou o Mundo, em tradução livre). “Este é mais ou menos o padrão da pandemia  ao longo da história. Se você conversar com especialistas em saúde pública, eles falarão que passaremos por este ciclo de pânico e de complacência: pânico quando uma pandemia se declara, e então esquecemos dela, assim que for embora”.

Na França, onde ela mora, há mais de 170 mil monumentos à Primeira Guerra Mundial. Foram erguidos nos anos 1920 e 1930, como um lembrete sempre presente dos milhões que morreram. Mas ela não encontrou um único monumento à pandemia de 1918 no país, embora ela tenha tirado a vida de mais pessoas - de 50 milhões a 100 milhões no mundo todo, segundo as estimativas.

Como explicar tal discrepância?

Os homens tentam compreender a vida por meio de histórias, explica Spinney - é por isso que alguns eventos ficam gravados na nossa memória histórica, mas outros não. A guerra se presta a grandes romances, poemas, filmes: Tem coisas boas e ruins, e um começo, meio e fim mais , definitivos - os componentes do drama humano.

A pandemia é mais difícil de compreender e desafia as narrativas simples. Outro fator, disse Spinney: “As guerras destroem as pessoas e destroem a infraestrutura. Leva muito mais tempo recuperar-se de uma guerra do que de uma pandemia, que só mata pessoas”.

Os historiadores acreditavam que os ‘Roaring Twenties’ foram a reverberação da Grande Guerra, mas alguns estudiosos agora consideram a pandemia um fator igualmente significativo na corrida para aproveitar do presente, desafiar o medo e a morte, conscientemente ou não. A ênfase não  estava na introspecção, mas na experiência e em seguir adiante. A gripe de 1918 gerou um grande número de reformas na saúde pública, mas raramente foi discutida fora dos círculos científicos.



Há uma chance de a pandemia de 2020 ser diferente. “Em 1918, as doenças infecciosas eram as maiores causadoras  de morte da humanidade”, antes da pandemia de gripe de 1918, afirmou Spinney. “Desde então, elas foram tomadas pelas doenças crônicas da velhice. Por isso esta é uma importante mudança da maneira de pensar como nossas vidas terminarão e quais são as nossas maiores vulnerabilidades. Estamos muito mais obcecados pelo Alzheimer do que  pelo sarampo. E você pode ver isto no movimento geral de hesitação a respeito da vacina.” Deveríamos lembrar mais do coronavírus porque é muito diferente das doenças que em geral matam os americanos. 

Outro fator que poderia ajudar esta pandemia a enfrentar a tendência ao esquecimento: os computadores.

“Qualquer um com acesso à internet no mundo poderia, se quisesse, observar as taxas de infecção e as de morte, quase em tempo real desde o começo da pandemia”, disse Spinney “Desde o começo, nós tínhamos uma visão dela como um fenômeno global, pelo menos em grau muito maior do que em 1918”. Em outras palavras: todos nós temos uma história desta vez. 

O historiador Ran Zwigenberg, da Pennsylvania State University, estuda o trauma nos sobreviventes do Holocausto e as vítimas do bombardeio de Hiroshima. Os sobreviventes do Holocausto lutaram para fazer frente a um passado de horrores; os sobreviventes de Hiroshima tiveram de viver com o trauma constante de um futuro incerto. “A radiação permaneceu nos corpos’, disse Zwigengerg. “Eles não sabiam se iriam ficar doentes. E toda vez que apanhavam um resfriado, a pergunta era ‘Será isto?’ ” 

O que todos tinham em comum? “Em geral, na maioria, as pessoas - se pudessem - tendiam a abraçar a vida. Não o hedonismo, mas a família. Ter filhos, construir um futuro. Muitos deles passaram a olhar para dentro”; Os que se voltaram para fora abraçaram o ativismo, dando um depoimento para emprestar algum propósito ao que acontecia com eles. E alguns, é claro, ficaram quebrados de maneira irrecuperável. A única constante era aprender a viver com a constante sensação de que o mundo era um lugar incerto. 

No entanto, é difícil chegar a conclusões definitivas a respeito de como estas experiências afetam as pessoas. “Não se pode quantificar o sofrimento”, disse Zwigenberg

Paredes e Iram Leon, membros fundadores da Coalizão dos Sobreviventes de Câncer do Texas, viveram com medo durante anos. Paredes recebeu o diagnóstico de câncer de mama quando tinha 26 anos, e câncer na fase 3 nos ovários aos 36, e depois novamente, dois anos mais tarde. Leon, 40, teve uma forma rara de câncer no cérebro quando tinha 30 e os médicos disseram que ele tinha 12% de chances de sobreviver a 10 anos.

“A questão é sempre: Quando irá acontecer? E não se”, disse Paredes. “Minha perspectiva mudou. Passo a focalizar o horizonte temporal, prazos finais. Tudo parecia muito acelerado”.

Leon disse que ele se concentrou em sua filha pequena e nos amigos íntimos, mas parou de fazer novos relacionamentos. E tudo se tornou a “última” vez que ele fazia alguma coisa. “Você tem algumas coisas a fazer, mas eu perdi toda perspectiva de futuro. Um amigo estava falando da formatura da minha filha no secundário - agora ela tem 14 anos - e eu me dei conta de que não penso com quatro anos de antecedência desde que tinha 29. “

O câncer não mudou as suas personalidades básicas. Leon acha que pode ter abrandado algumas asperezas: Paredes acredita que se tornou um pouco menos paciente com as pessoas que se queixam de incômodos menores da vida. E, em muitos sentidos, a pandemia reforçou a sensação de urgência que ambos já sentiam.

Há uma importante distinção entre viver com um trauma extremo ou uma doença que ameaça a vida, e viver com a possibilidade de adoecer. Mas, para a maior parte dos americanos, este ano foi a primeira vez em que se defrontaram diariamente com a mortalidade. O vírus espirrava da televisão, das telas dos computadores, das contas da mídia social - amplificando cada medo, duvidando de cada escolha. O instinto de agir sobre o futuro em vez de ficar no passado é muito compreensível e muito humano.

No entanto, mergulhar novamente na vida também pode ser algo míope, disse Leon. “O problema de ‘aproveitar o dia’ é que ele encurta o seu tempo de aprendizado. Se você pensa que tudo é a sua última chance, não está realmente prestando atenção ao que precisa aprender para a próxima vez. Porque você não pensa que haverá uma segunda vez”.



No começo de abril, o The New York Times publicou uma matéria que afirmava que “Você pode ser uma pessoa diferente depois da pandemia” com algum esforço concentrado - e que a pandemia poderá oferecer um incentivo a tentar isto. O artigo provocou um meme entre os usuários das redes sociais que postaram o título juntamente com uma foto de um personagem que se transforma de uma pessoa para outra. 

Mesmo que estivéssemos dispostos a usar este tempo como uma chance de autoaprimoramento, é difícil saber se ou como a pandemia poderia realmente nos afetar agora ou nos próximos anos. 

Wiebke Bleidorn e Chris Hopwood, psicólogos da Universidade da Califórnia em Davis, estudam como as personalidades evoluem e mudam. Para os cientistas do comportamento, a pandemia - com outros eventos históricos de 2020 - é “uma grande oportunidade porque é um importante evento na vida sobre o qual não tivemos nenhum controle - ela só nos aconteceu”, disse Bleidorn.

A resposta de cada indivíduo, evidentemente, depende do que exatamente ele experimentou no ano passado, disse Hopwood. Ele evitou os trágicos efeitos da pandemia e espera retornar ao mundo, mas “outras pessoas que trabalham na medicina e estão nas linhas de frente, ou afro-americanos que lidam com as tensões de ‘Vidas negras importam’, ou perderam entes queridos ou estão em famílias onde existem divisões políticas reais - eles realmente arcaram com os efeitos negativos desta pandemia”.

Se, e de que maneira isto altera a personalidade, é outra questão. Teoricamente, há uma oportunidade de transformação positiva: mudar de hábitos sistematicamente com o tempo pode levar a suportar mudanças de perspectiva. No entanto, há um padrão muito alto em relação ao que os estudiosos consideram uma mudança permanente. “Uma mudança de comportamento que não está associada a uma mudança da maneira como você sente e pensa a respeito de si mesmo não é realmente importante do nosso ponto de vista”, afirmou Hopwood.

Além disso, disse Bleidorn, a maioria das pessoas começa com o que os estudiosos chamam de “ponto de ajuste” - um conjunto de traços e comportamentos que flutuam em resposta a eventos específicos da vida. As pessoas normalmente crescem e amadurecem, mas em geral voltam para a sua natureza essencial.

Isto não significa que não possamos tentar ser melhores.

Como certa vez um professor de universidade disse a Leon: “Aprenda com os milagres de outras pessoas. Você não vai ter tempo suficiente para fazer tudo por conta própria”.


Tradução de Anna Capovilla

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