Jahi Chikwendiu/ Washington Post
Jahi Chikwendiu/ Washington Post

A pandemia está forçando alguns homens a perceber que precisam de amizades mais profundas

Muitos homens tiveram mais dificuldade do que as mulheres para descobrir como adaptar suas amizades em meio a uma pandemia que os está mantendo separados

Samantha Schmidt, The Washington Post

03 de dezembro de 2020 | 11h00

WASHINGTON – Foi preciso uma pandemia global e uma separação em um momento nada apropriado para que Manny Argueta percebesse o quanto ele havia se distanciado de seus amigos.

Na primavera, depois que o homem de 35 anos deixou a casa que dividia com sua ex-namorada e se mudou para uma quitinete no subúrbio de Falls Church, Virgínia, sozinho, ele passava uma semana inteira sem dizer uma palavra. Não havia mais dias de jogos com os rapazes, nem noites de sexta-feira em bares do centro, e Argueta estava faminto por interação social. Ele apelou para seu PlayStation 4 e aproveitava o microfone enquanto jogava Overwatch com um estranho apenas para ouvir a voz de alguém. Então descobriu o aplicativo de mensagens Discord e começou a conversar com seus velhos amigos gamers e a vê-los jogar Mortal Kombat 11 - mesmo quando ele não tinha o jogo configurado.

Ele começou a reconhecer como suas amizades se tornaram dependentes daqueles jogos de futebol de domingo e noites nos lounges da 14th Street, de desabafar sobre os republicanos ou por que os Caps não chegaram aos playoffs. Quase nunca falavam sobre relacionamentos ou família, ou apenas geralmente como estavam. Ele nunca conheceu muitos dos familiares de seus amigos.

Em uma rara noite em que ele conversou com um velho amigo em outubro, uma mistura de vulnerabilidade e embriaguez o levou a colocar para fora suas frustrações. "Aposto que você ainda não tem ideia de por que ela e eu terminamos", disse ele ao amigo. "Aposto que você não tem ideia." O amigo fez uma pausa, pediu desculpas e o deixou falar um pouco em relação a isso.



Por mais de uma década, psicólogos escreveram a respeito da "crise da amizade" que muitos homens enfrentam. Uma análise de 2006 publicada na American Sociological Review descobriu que, embora os americanos em geral tenham menos amigos fora do círculo familiar do que costumavam ter, homens jovens, brancos e escolarizados perderam mais amigos do que os demais grupos.

As amizades entre homens costumam estar arraigadas em interações "mano a mano", como assistir a um jogo de futebol ou jogar videogame, enquanto as interações entre mulheres são mais cara a cara, como tomar juntas um café ou uma taça de vinho , disse Geoffrey Greif, professor da Escola de Serviço Social da Universidade de Maryland que escreveu um livro sobre a amizade entre homens. Quando Greif entrevistou centenas de homens sobre como eles costumavam socializar com amigos, 80% dos homens disseram "esportes" - assistindo ou participando deles juntos.

Por causa disso, muitos homens provavelmente tiveram mais dificuldade do que as mulheres para descobrir como adaptar suas amizades em meio a uma pandemia que os está mantendo separados.

"As regras para caras que procuram outros caras para fazer amizades não são claras", disse Greif. "Caras não querem parecer muito necessitados."

Mas a pandemia pode estar forçando essa dinâmica a mudar.

Em e-mails e entrevistas com o The Washington Post, dezenas de homens compartilharam histórias sobre jogos de pôquer pelo Zoom, noites fumando charuto no quintal, redes de apoio de pais da vizinhança por WhatsApp, grupos de Dungeons & Dragons e ligas de Fantasy Football, onde conversas casuais a respeito de esportes e política de repente levaram a conversas profundas - sobre as dificuldades do ensino à distância, familiares doentes, separações, nascimentos, adiamentos de casamento e perda de empregos.

O momento parece mais pesado e as conversas também. Alguns homens disseram que suas amizades começaram a se parecer mais com as de suas esposas e namoradas. Pela primeira vez na vida, eles vão caminhar com os amigos apenas para se atualizar sobre o que estão passando. Eles são velhos amigos de faculdade usando o FaceTime para saber como estão os vizinhos - não apenas para falar a respeito das escolhas do draft da NBA ou o cronograma de futebol de seus filhos - mas para perguntar como estão indo.

Argueta, que trabalha como especialista em empréstimos, costumava evitar falar de detalhes pessoais nas conversas com os amigos. Mas depois de ter dificuldades com sua saúde mental e fazer terapia este ano, ele disse que quer começar a encontrar maneiras de dizer a seus amigos o que está realmente acontecendo com ele.

"Estamos tão acostumados a encontrar uma distração para nos ajudar quando deveríamos abordar o que está diante de nós", disse ele. "O mundo precisava desacelerar ... nós deveríamos desacelerar também."

Os homens nem sempre foram assim.

Quando meninos, os amigos do sexo masculino tendem a compartilhar seus segredos mais profundos e sentimentos mais íntimos uns com os outros, disse Niobe Way, professora de psicologia do desenvolvimento que entrevistou centenas de meninos para seu livro de 2013, Deep Secrets: Boys 'Friendships and the Crisis of Connection (Segredos profundos: Amizade Entre Meninos e a Crise de Conexão, em tradução livre).

Mas conforme os meninos começam a entrar na adolescência aos 15 ou 16 anos, "você começa a perceber eles se fechando e não se importando mais", disse Niobe. Eles começam a agir na defensiva em relação à suas amizades, dizendo que "não são gays" e que não são mais tão próximos. "Você percebe essas expectativas de masculinidade serem impostas a eles."

Niobe argumenta que a falta de vulnerabilidade nas amizades masculinas está enraizada em uma cultura misógina e homofóbica que desencoraja a intimidade emocional entre os homens. Mas também faz parte de uma cultura que não valoriza a amizade adulta em geral.

"O objetivo da vida adulta é encontrar um parceiro, não encontrar um melhor amigo", disse Niobe. "Não há nada em nossa definição de sucesso ou maturidade ... que inclua amizades."

Mas pesquisas mostram que amizades íntimas e o convívio social são essenciais para sobreviver. Um estudo da Universidade Brigham Young descobriu que as conexões sociais - com amigos, família, vizinhos ou colegas - aumentam as chances de sobrevivência de uma pessoa em 50%.

Em 2018, a taxa de suicídio entre homens era 3,7 vezes maior do que entre as mulheres, segundo estatísticas do Instituto Nacional de Saúde Mental. Mas algumas pesquisas mostram que os homens têm menos probabilidade do que as mulheres de admitir que são solitários, enquanto outras pesquisas sugerem que os homens compartilham mais de sua intimidade emocional com as mulheres de suas vidas. Em um estudo, os homens casados tinham mais probabilidade do que as mulheres de listar o cônjuge como seu melhor amigo.

Nesta época de isolamento sem precedentes, disse Niobe, muitos homens podem ser forçados a mudar a maneira como pensam a respeito de suas amizades e a se conectar de maneiras novas e mais profundas. "Eu acho que eles estão sendo forçados a isso para sobreviver."

John Bramlette, 42 anos, pai de dois filhos pequenos no subúrbio de Chevy Chase, Maryland, viu essas mudanças em seus relacionamentos. Antes da pandemia, seus amigos mais próximos do sexo masculino eram do time de softball com o qual ele jogava há 14 anos, todas as quintas à noite. O grupo costumava se reunir para tomar uma cerveja após uma partida ou para assistir ao beisebol na TV depois que as crianças dormiam.

Mas em tempos normais, nunca passou por sua cabeça chamar um de seus amigos para dar um passeio, apenas para conversar, algo que sua esposa tem feito com suas amigas durante toda a sua vida adulta. No mês passado, ele fez três caminhadas com amigos do sexo masculino e planeja continuar fazendo isso regularmente, na hora do almoço.

"É totalmente lógico", disse Bramlette, que é diretor de operações da Washington Nationals Philanthropies. "Por que não fazíamos isso?"

Dave Wakeman, 46 anos, consultor de marketing em Washington, disse que muitas de suas interações sociais antes da pandemia giravam em torno das atividades esportivas de seus filhos ou reuniões familiares com os vizinhos. Mas após oito semanas de pandemia, ele encontrou um vizinho de rua e percebeu que havia perdido contato com ele e com outros pais da vizinhança.

O grupo de seis homens decidiu começar a organizar happy hours com distanciamento social, sentados em suas espreguiçadeiras, cada um na frente de sua casa, na rua sem saída onde moram. Eles criaram um grupo no WhatsApp com o nome de "O Batalhão", onde compartilham constantemente de tudo, desde piadas de Tucker Carlson e memes políticos a frustrações com o cuidado com os filhos e trabalhar em casa.

"Tornou-se mais fácil para as pessoas dizerem: 'Ei, estou realmente passando por dificuldades agora'", disse Wakeman.

Alguns anos atrás, Stephen Davis, 33 anos, gerente fiscal no subúrbio de Alexandria, Virgínia, começou a participar de um grupo de mensagens com um de seus melhores amigos e alguns outros caras que ele conhecia vagamente da faculdade. A conversa foi, a princípio, focada exclusivamente no mundo da luta livre profissional. Eles deram o nome de "Five MB" ao grupo, abreviação de Five Man Band (Banda dos Cinco Caras).

Mas, recentemente, o grupo evoluiu para um espaço para desabafar em relação a muito mais temas. Isso os ajudou a várias mudanças de emprego, mudanças de casa e o nascimento de quatro de seus filhos - incluindo dois durante a pandemia. Quando Davis estava lutando para ter ideias de como manter seu filho ocupado enquanto os playgrounds estavam fechados, um dos outros pais do grupo sugeriu uma pista de obstáculos com almofadas para seu filho correr entre elas. Quando a bolsa da esposa de Davis estourou, ele mandou uma mensagem para o Five Man Band antes de qualquer outra pessoa - mesmo antes de seus pais.

O grupo se tornou mais próximo do que nunca durante a pandemia. Eles agora enviam cerca de 100 mensagens de texto por dia, um fluxo constante de consciência sobre o que está acontecendo em suas vidas. As conversas parecem mais vulneráveis, mais honestas do que outras que Davis já teve com amigos no passado. É o tipo de conversa que ele nunca seria capaz de ter enquanto estava sentado em um bar assistindo a um jogo.

"Sempre há muito burburinho até chegar ao próximo nível", disse ele.

Jonathan Gordon às vezes deseja que seus colegas de faculdade conversassem a respeito de assuntos mais sérios. O grupo é formado por quatro homens, que se conheceram em seu primeiro ano na Universidade da Virgínia e agora estão na casa dos 30 anos, e todos foram padrinhos de casamento uns dos outros. Eles fizeram viagens internacionais juntos e todos consideram os outros homens do grupo seus amigos mais próximos.

Então, por que eles nunca conversam de fato a respeito de seus sentimentos?

"Sempre achei engraçado conversarmos sobre coisas irrelevantes de 80 a 90 por cento das vezes", disse seu amigo, Alex Hyde, 32 anos, durante uma videochamada em grupo por Zoom na semana passada.

Quando os amigos se reúnem pessoalmente, para uma cerveja ou jantar, os detalhes mais profundos "aparecem por acidente", disse Hyde. Agora que não podem [se encontrar], os tópicos mais sérios não aparecem naturalmente nas mensagens. Parece mais bruto, disse Hyde. "Em geral, com outros caras, há uma certa quantidade de preocupação que acompanha tudo o que você diz... Você tem que estar pronto para isso."

Parece impossível não voltar a zombar uns dos outros, disse Gordon. "Não temos autocontrole ... Não posso deixar de rir. Nós provocamos um ao outro", disse ele. "Em um mundo ideal, não faríamos isso."

Esse é o tipo de conversa que Argueta, em Falls Church, esperava de seus amigos.

No sábado, quando dois amigos vieram ajudá-lo a configurar seu computador, Argueta esperava que eles zombassem dele por parecer um "universitário sem dinheiro" em seu novo apartamento, onde mal colocou algo nas paredes e tem cabos por toda a mesa.

Em vez disso, os amigos perguntaram a ele o que levou ao rompimento e como ele estava lidando com os últimos meses. Argueta se abriu com eles – a respeito de seu relacionamento anterior, da mudança, da pandemia, de tudo. Ele estava mais próximo a eles do que nunca.

Um de seus amigos o lembrou que ele poderia entrar em contato pelo grupo no Discord a qualquer hora. "Basta falar, apenas dizer qualquer coisa", disse o amigo. "Alguém vai responder."

Argueta planejava enviar-lhes uma mensagem de texto pelo grupo em breve, agradecendo a seus amigos por terem vindo e por "me ajudarem muito mais do que imaginam". Ele queria continuar sendo honesto em relação ao que estava passando.

"Eu vou ser sincero", disse ele.

E se perguntava se os amigos fariam o mesmo.


 TRADUÇÃO DE ROMINA CÁCIA

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