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A palavra do 'injusto' colaborador

Claude Lanzmann mostrou seu novo longa, fora de concurso, numa sessão especial

O Estado de S.Paulo

10 de julho de 2013 | 02h09

É bom que o espectador que assiste agora a Hannah Arendt já saiba o que o espera, talvez no Festival do Rio ou na Mostra de São Paulo. O Festival de Cannes tradicionalmente apresenta as Lições de Cinema (por um grande diretor) e de interpretação (por um grande ator ou atriz). Este ano houve também uma lição de História (com maiúscula). Claude Lanzmann mostrou seu novo longa, fora de concurso, numa sessão especial. Põe longa nisso. O Último dos Injustos tem mais de quatro horas de duração. As reações foram entusiásticas.

Antes de se tornar cineasta, Lanzmann trabalhou na revista Temps Modernes, do filósofo Jean-Paul Sartre. E ele também viveu sete anos com Simone De Beauvoir, informa Jean Tulard no Dicionário de Cinema. Como diretor, Lanzmann deve sua fama a Shoa, em que relembra os campos de extermínio dos nazistas sem mostrar as imagens conhecidas de Treblinka, Auschwitz ou Subibor. Shoa tem mais de nove horas - O Último dos Injustos tem menos que a metade, mas Lanzmann concede a palavra a um dos personagens mais polêmicos do judaísmo, e não apenas da 2ª Guerra Mundial.

O injusto do título é o grão rabino de Viena, Benjamin Murmelstein, dirigente judeu do campo/gueto de Theresienstadt, onde hoje fica a República Checa. Como responsável pela administração das comunidades judaicas sob o nazismo, à frente dos 'Juddenrats', os Conselhos Judaicos, Murmelstein foi acusado de colaboracionismo. Esse tipo de abordagem dos Juddenrats prevaleceu no pós-guerra, nos anos 1950 e no começo dos 60, durante o processo de Adolf Eichmann, em Jerusalém.

Hoje, uma nova corrente da historiografia considera "inadequada" a acusação. Numa longa entrevista no suplemento Cultura & Ideias, do jornal Le Monde, em 1.º de junho, a historiadora Annette Wieviorka, especialista da Shoa, rebate o que considera a simplificação das ideias de Hannah, que dizia que os judeus, e Murmelstein, deveriam ter-se recusado a formar os Juddenrats. Annette diz que essa parte do livro Eichmann em Jerusalém chega a ser insuportável, além de insustentável. O tema não perdeu sua capacidade de provocar polêmica nem de produzir grandes filmes, como é, segundo a crítica de Cannes, o de Lanzmann./ L.C.M.

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