A paixão segundo Clarice Lispector

Uma Aprendizagem ou O Livro dos Prazeres ressalta a perenidade do sentimento

Inês Pedrosa, O Estado de S.Paulo

31 de dezembro de 2010 | 00h00

As frases de Clarice são relâmpagos que iluminam a mais bruta e profunda matéria do humano. Todos os seus livros são prodigiosos, no sentido literal: a cada releitura trazem novas descobertas - e, ao contrário do que tantas vezes se diz, não é necessário ser-se "intelectual" para aceder a Clarice. É necessário, sim, ser-se uma coisa mais difícil: livre, como ela foi. Essa liberdade exige inocência, a capacidade de olhar para o já visto e já nomeado como se não o conhecêssemos. O dom da sua escrita é o de iluminar os objetos e os seres mais simples, interrogando-os para os entender, sem juízos prévios. A força da sua voz advém dessa inocência inexpugnável, valente, ilimitadamente ousada. Escolhi Uma Aprendizagem ou O Livro dos Prazeres porque é o mais perfeito e feliz livro que conheço sobre a paixão como conhecimento em crescendo e intensidade física que perdura - contra séculos de literatura que choram a sua tragédia e brevidade. Este romance não começa nem acaba: abre com uma vírgula e uma mulher excessivamente ocupada, termina com dois pontos depois dos quais Ulisses continuaria a dizer a Loreley o que estava a pensar. Clarice diz-nos que a conversa íntima entre dois amantes é infinita e particular - e diz-nos simultaneamente que o que se segue será da nossa responsabilidade, o nosso livro, nosso romance. Se todos podemos ser Ulisses e Loreley, cada um o será a seu modo - essa mistura de individualidade e impessoalidade é a pedra de toque da modernidade global e fragmentária em que vivemos, e é também a qualidade suprema da escrita de Clarice: tudo aquilo de que ela fala nos rasga as entranhas, por muito estranho que pareça - e nessa estranheza entranhada a nossa alegria e a nossa dor são também a descoberta do mundo.

A vírgula, acumulativa, digressiva, buliçosa, sinaliza a mulher. Os dois pontos, defensivos, reflexivos, narcísicos, sinalizam o homem. O que se passa durante o romance é a aproximação entre esses dois mundos. A relação entre Loreley e Ulisses faz-se de silêncios, esperas, um trajeto de noite e solidão em que tudo o que ambos sabiam antes de se encontrarem se transfigura e prepara para a sabedoria maior do amor. O erotismo cresce de um modo sinfônico perfeitamente orquestrado, até esse clímax em que os amantes "se amaram tão profundamente que tiveram medo da própria grandeza deles". O que é raro e belo é que continuam ainda a amar-se, para lá da página e da pontuação.

INÊS PEDROSA, ESCRITORA, É AUTORA DE OS ÍNTIMOS E FAZES-ME FALTA (ALFAGUARA BRASIL)

UMA APRENDIZAGEM OU O LIVRO DOS PRAZERES

Autora: Clarice Lispector

Editora: Rocco

(160 págs., R$ 27,50)

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