A paixão nacional, por três craques das letras

Com brasileiros não há quem possa, cantava aquela marchinha que embalou a primeira conquista de um título mundial para o Brasil, em 1958, na Suécia. O verso ufanista serve de título para o livro de Fátima Martin Rodrigues Ferreira Antunes, que procura ler nas crônicas sobre futebol de José Lins do Rego, Mário Filho e Nelson Rodrigues uma meditação contínua, popular e aguda sobre a identidade cultural brasileira. Zé Lins e os irmãos Mário e Nelson Rodrigues foram intelectuais de ponta. O primeiro, romancista de sucesso, autor de livros seminais como Menino de Engenho e Fogo Morto, foi também dirigente do Flamengo e serviu na antiga Confederação Brasileira de Desportos (CBD), antecessora da atual CBF. Mário Filho, hoje nome oficial do Maracanã, foi historiador do esporte e é autor de um clássico, O Negro no Futebol Brasileiro. Nelson, talvez nosso maior dramaturgo, revolucionou a cena teatral em 1943 com uma peça inovadora, Vestido de Noiva. Os três foram jornalistas. Os três apaixonados por futebol. Tiveram colunas em jornais e as usaram para pensar a nacionalidade brasileira, com todos os seus impasses, a partir de um ponto de observação privilegiado: o jogo da bola, essa atividade misteriosa, dotada de insondável poder de fascínio em quase todos os países do mundo. E, como fascina a todos, o futebol também se presta a algumas interessantes leituras simbólicas. Por exemplo, para os nossos autores, um time de futebol, a seleção em especial, exprimiria o caráter nacional de um povo. Por isso era tão importante quanto dolorosa a tentativa de compreender a derrota de 16 de julho de 1950 diante do Uruguai, em pleno Maracanã. Por isso era fundamental discutir se a mestiçagem brasileira criara uma raça fraca, que afinava na hora agá, ou se era justamente essa circunstância que daria o bom blend na hora certa, sendo que o Garrincha de 1958 seria o melhor exemplo. Através das crônicas, Zé Lins, Mário e Nelson se atormentaram com essas e outras dicotomias aparentemente insolúveis: os brasileiros seriam individualistas demais para brilhar num jogo coletivo, ou esse individualismo poderia se transformar em sua força mais eficaz? O brasileiro seria humilde em excesso (como fora na final contra o Uruguai) ou orgulhoso demais (como demonstrara ser no jogo anterior, quando humilhara a Espanha na goleada de 6x1 com as arquibancadas do Maracanã cantando a marchinha de carnaval Touradas em Madri)? E assim por diante. "Na verdade, essas reflexões sobre o caráter nacional passavam pelas obras de Sérgio Buarque de Hollanda, Gilberto Freyre e Paulo Prado e chegavam às crônicas de futebol por meio de Zé Lins, Mário Filho e Nelson Rodrigues", diz Fátima. Com a diferença, acrescente-se, de que estes escreviam em veículos de massa, tratavam de um assunto - o futebol - que interessava a todos e assim diluíam essa meditação sobre a natureza do brasileiro em suas páginas diárias. Nelson e Mário eram de família pernambucana, nascidos no Recife, mas, para efeitos práticos, cariocas da gema. Nelson torcia para o Fluminense e Mário era flamengo discreto, diferentemente do paraibano Zé Lins, rubro-negro tão fanático quanto Ary Barroso. Iam aos estádios, conviviam com a multidão, sentiam o pulso dos times. Sofriam, observavam e meditavam. Sabiam que o futebol podia ser usado por diferentes governos, como de fato foi pelo desenvolvimentista JK e depois pela ditadura Médici. Mas nunca caíram na ingenuidade de supor que fosse apenas uma atividade "alienada", como queriam alguns intelectuais. Achavam que decifrando o mistério do jogo talvez decifrassem o enigma do próprio Brasil. A época de atuação estudada por Fátima em Com Brasileiro não Há Quem Possa! (Unesp, 302 págs, R$ 38) , dos anos 1950 aos 1970, vai do trauma do Maracanã à conquista do tri.

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