A paixão encantatória de Mahler

Regente Justin Brown abre tributos da Osesp com leitura mais arisca que o habitual da Quarta Sinfonia

Crítica: João Marcos Coelho, O Estadao de S.Paulo

22 de março de 2010 | 00h00

Nenhuma música na Terra pode ser comparada à nossa, canta a soprano no movimento final da Quarta Sinfonia de Mahler. De fato, como as cantatas de Bach e as sinfonias de Beethoven a partir da Eroica, os vastos afrescos sinfônicos de Mahler convidam não só à participação num ritual virtualmente comunitário, mas quase sempre nos alertam, como disse Roland Barthes: "Ouçam, vou tocar algo que vocês nunca ouviram". A genial mistura da música do dia a dia com "o que nunca ouvimos" faz o sal desta música encantatória, capaz de transformar cerca de 1.500 pessoas. Desconhecidas entre si, unem-se como num passe de mágica numa silenciosa rave em torno do compositor austríaco.

Isso aconteceu de fato na última quinta-feira, na Sala São Paulo, quando Mahler dividiu com a plateia os sentimentos contraditórios que teve ao traduzir na Quarta Sinfonia sua alucinada paixão por Alma, 20 anos mais nova: de um lado, o prazer do amor; de outro, o medo do futuro. Uma ambivalência que o faz ora retroceder à infância, ora sonhar com o paraíso - e outras vezes ironizar tais sensações. Foi assim a largada nos tributos da Osesp a Mahler em 2010, pelos 150 anos de nascimento, e em 2011, pelo centenário de morte.

A leitura do jovem regente britânico Justin Brown desta sinfonia gravada centenas de vezes teve de diferente um tom arisco, sobretudo no primeiro longo e maravilhoso movimento, já desde as flautas combinadas com sininhos. Mahler prescreve que seja tocada de modo circunspecto; Brown apertou o passo sem necessidade. O melhor momento foi o Adagio, pungente na medida certa e, quem sabe, o instante de maior integração entre regente e orquestra (esta, aliás, em noite de gala, sem deslizes).

O anticlímax ocorreu no movimento mais encantatório da Quarta Sinfonia: o lied A Vida Celestial. O belo timbre de Gabriela Pace foi encoberto pela orquestra na maior parte da canção, numa demonstração de que não só maestros brasileiros adoram encobrir solistas vocais; sorte que Justin Brown notou o equívoco e nos versos finais pudemos enfim ouvir com clareza a soprano. Os destaques ficaram, é claro, com as trompas, com partes desafiadoras, tanto quanto as madeiras. As primeiras estantes, a começar do spalla Emmanuele Baldini, foram irretocáveis. A orquestra, aliás, está em forma excepcional. Já na Passacaglia de Britten, incrível demonstração de competência no domínio da orquestração, brilhou a viola de Horácio Schaefer num belo solo.

Mas quem foi assistir Mahler embasbacou-se com o concerto para violino e orquestra de Samuel Barber. Neste ano celebra-se o centenário de nascimento do americano. Barber é vítima da síndrome da obra única. É muito conhecido só pelo Adagio cuja versão para cordas Leonard Bernstein celebrizou na cerimônia fúnebre de John Kennedy. Menos valorizado que seu contemporâneo Aaron Copland, Barber tem dom para belas melodias, de corte amplo. Seu concerto para violino, composto em 1939 por encomenda de um milionário para um afilhado violinista, foi recusado pelo mecenas devido à dificuldade técnica do terceiro movimento, um alucinante presto in moto perpetuo. Quis o dinheiro de volta. Barber foi objetivo: "Já gastei".

Tinha razão o milionário. É diabólico o terceiro movimento. Lembra as piruetas de Paganini, o mago dos violinistas. O jovem solista, Augustin Hadelich, é italiano como Paganini e de virtuosidade extraordinária. Pena que sua arte esteja além do instrumento que empunhou, de pequena sonoridade - merecia violino de som mais encorpado. Ainda assim, fez valer seu talento. No extra, homenageou Paganini, esmerilhando no Capricho nº 27 para violino solo. Em Barber, destaque ainda para o oboé de Arcádio Minczuk, com participações precisas. E para as cordas. Não é de hoje que as cordas da Osesp são diferenciadas. Mas como foi bom ouvir um uníssono afinado em prestíssimo e que não se embaralha na maçaroca habitual na maioria das orquestras brasileiras. E ao mesmo tempo banhar-se na delicadeza de um enorme crescendo, por exemplo, no início do Adagio da Quarta Sinfonia de Mahler, de sonoridades quentes. A caminhada no universo de Mahler pela Osesp promete momentos memoráveis.

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