A Paixão de Cristo em narrativa polifônica

O prodigioso ator português Diogo Morgado cria Jesus como você nunca viu antes na tela

LUIZ CARLOS MERTEN, O Estado de S.Paulo

22 de abril de 2014 | 02h09

Arrastado pela guarda pretoriana de Pôncio Pilatos, o filho de Deus diz à mãe, Maria - "Começou". Do alto da cruz, e de novo dirigindo-se a Maria, prostrada no solo, anuncia - "Terminou". É significativo que o Cristo de Christopher Spencer não apenas diga essas palavras, como as diga a sua mãe terrena. É uma forma de reafirmar a dimensão humana do Cristo. Mas isso não elimina o mistério anunciado pelos reis magos na cena inicial. Como ele próprio anuncia ao sacerdote de Caifás, Cristo é o filho Deus feito homem para redimir a humanidade.

Talvez seja a mais conhecida das histórias. A maior? Como acreditar que ainda seja possível acrescentar-lhe algo novo? Grandes diretores, diretores de prestígio como William Wyler, Nicholas Ray, Pier Paolo Pasolini, George Stevens, Martin Scorsese e o próprio Mel Gibson (por que não?) já contaram essa história e tentaram iluminar aspectos muitas vezes controversos da Paixão de Cristo. Na pintura, na escultura, na literatura e na música, as abordagens são inúmeras. Quem é esse Christopher Spencer para ter logrado mais que seus colegas cineastas? A superioridade dessa versão está no que não parece tão difícil. Pela primeira vez, temos uma visão polifônica do Cristo.

Compare até com o Cristo de Pìer Paolo Pasolini (Enrique Irazoqui) em O Evangelho Segundo São Mateus, que acaba de sair em Blu-Ray pela Versátil, com direito a quase três horas, mais que o próprio filme, de extras.

Na maioria das vezes, senão sempre, só o Cristo interessa. Os demais personagens são meros figurantes que parecem estar ali para reafirmar a força do Verbo, segundo o Cristo. E por que isso é importante? Porque a Santíssima Trindade é composta pelo Pai, o Filho e o Espírito Santo. Porque, no princípio, era só (só?) o Verbo. Pilatos agora não está ali apenas para propor uma barganha e lavar as mãos. Ele tem uma história, da qual participa a mulher, Cláudia, e ela tem uma visão. Entendemos mais o Judas, a danação de Pedro ao negar o Mestre e até a condenação de Caifás. Houve muitos falsos Messias. O que talvez os diferenciasse do Cristo não era o Verbo, mas os milagres. Caifás deveria ter prestado atenção aos milagres e não os rejeitado como bruxaria. Ao seu emissário, que o acusa de blasfêmia, Cristo responde com uma pergunta - "O que é mais fácil? Dizer que sou o filho de Deus ou a esse homem (o paralítico) que se levante e ande?"

Feito para TV - a versão para cinema é a redução de uma série do canal Discovery -, O Filho de Deus inova ao mostrar Maria Madalena como apóstola, embora ela não figure na recriação da Santa Ceia (para não quebrar a iconografia oficial?). A produção não é cara, mas a fusão de cenários reais e efeitos de computador é bem lograda. Os tons terrosos, a fotografia suja e a trilha de Hans Zimmer contribuem para o clima (e a autenticidade). Mas é o ator que interpreta o Cristo quem faz a diferença. Diogo Morgado é um modelo e ator de origem portuguesa. Quantas vezes você já leu e viu esses atributos usados de forma depreciativa? Morgado chegou a fazer uma novela no Brasil, no SBT. Veste as sandálias de Cristo com propriedade. Ao contrário do frágil e irado Cristo de Pasolini, possui vigor físico e uma alegria desconcertante. Com todo respeito pelas Escrituras que o filme possa ter, há algo de pagão na forma como ele retribui o calor da multidão que o recebe como Messias. Mas ele sabe - num momento de dúvida, no Monte das Oliveiras, pergunta "por quê?". E, depois, "Seja feita a Tua Vontade" (do Pai). A caminho do Gólgota, abandonado pela multidão, lembra com tristeza a recepção na chegada a Jerusalém. É o homem e o filho Deus. Tudo está escrito. É uma história difícil de contar, no sentido de que se fala muito em verdade, mas ela se constrói na lenda.Christopher Spencer, com a cumplicidade do prodigioso Diogo Morgado, conseguiu.

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