A 'Paella' de Álex la Iglesia

VENEZA

Luiz Zanin Oricchio / VENEZA, O Estado de S.Paulo

08 de setembro de 2010 | 00h00

Enquanto dois palhaços divertem as crianças no picadeiro, fora do circo prossegue a sangrenta guerra entre fascistas e republicanos. É assim, pontuando ora sobre o drama peculiar dos personagens, ora sobre a história do país, que o diretor Álex de la Iglesia conduz seu Balada Triste de Trompeta dos tempos da Guerra Civil até o atentado contra Carrero Blanco, já no ocaso do franquismo. Tudo isso e , de bônus, um gran finale, à maneira de Hitchcock, no Valle de los Caídos, o monumento erguido por Franco.

Balada Triste de Trompeta é saboroso como uma paella, cheio de personalidade como um Rioja, sangrento como uma tourada. Espanhol até a medula, conta, em primeiro plano, a história de um triângulo amoroso entre dois palhaços (Carlos Aceres e Antonio de la Torre) e a acrobata do circo, vivida por Carolina Bang - um portento ibérico. Por trás, ou em volta desse romance, uma história real, a da Espanha, trágica, exasperada, às vezes ridícula, outras vezes sublime. Tudo isso, De la Iglesia tenta conter nesse filme desmedido, sem qualquer vocação para o realismo, que enfrenta as situações mais inverossímeis e grotescas com um sorriso de desfaçatez. Não por acaso, a Espanha foi a pátria de dom Luis Buñuel.

O próprio De la Iglesia admite que seu filme não passa de um longo e talvez desesperado exorcismo: ''Temos essa sensação de um passado sinistro, de uma violência sem fim, hostilidade pela qual nós, da nossa geração, não somos responsáveis. Essa agressividade que se vê ainda pelas ruas, parece natural; mas não, é o inferno que nos tocou viver. Esssa violência repercute no filme, é claro. É, assim, um exorcismo ritual. Esse enfrentamento com a história que nos coube.''

Por sorte, o banho de sangue proposto é temperado com uma ternura de intensidade igual, mesmo que travestida pelo amor louco que dois homens desfigurados, os palhaços Javier e Sergio, alimentam pela mesma mulher. ''No fundo, Balada é um filme de amor. Demente, violento, maníaco, mas amor.'', diz o cineasta. Amor pelas personagens. Amor pela Espanha.

VENEZIANAS

Bandidos

A cada vez que o cinema retrata a história de um marginal corre o risco de glamourizar o personagem. Quantas vezes você ouviu essa história, de O Bandido da Luz Vermelha a Cidade de Deus? Pois na Itália é a mesma coisa. A maior polêmica do festival foi levantada por um filme fora de concurso chamado Vallanzasca - Gli Angeli del Male, de Michele Placido. Retrata a vida do bandido Renato Vallanzasca, que nos anos 70 agia em Milão e era famoso por sua ousadia, beleza e sucesso com as mulheres. Quem o interpreta é o bonitão Kim Rossi Stuart. O diretor Michele Placido foi obrigado a ouvir, através da imprensa, o clamor dos parentes das vítimas de Vallanzasca, que se sentiram desrespeitados pelo filme. O ministro do Interior, Roberto Maroni, mesmo sem ter visto, entrou na polêmica e disse: "Entre Placido e as vítimas, estou com as vítimas." O cineasta Placido limitou-se a contra-atacar: "No Parlamento há gente pior que ele."

No caminho do Gallo

Outro astro que chegou ao Lido e, no estilo do seu compatriota Vincent Gallo, recusou-se a dar entrevistas, foi o problemático astro Joaquin Phoenix. Ele deu autógrafos, mas ficou na sombra, preferindo deixar à frente do palco Casey Affleck, o diretor do filme do qual é protagonista, I"m Still Here. Joaquin, irmão de River Phoenix (morto de overdose em 1993), estava cogitando deixar a carreira de ator. Affleck disse que talvez o filme indique uma redenção, tanto para ele como para Joaquin. De qualquer forma, o filme diz que ele ainda está por aí.

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