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A outra vida do sr. Antonio

Dona Julinha desconfiou quando entrou na sala a tempo de ouvir seu marido, o sr. Antonio, dizer "Tchau, amor" e desligar o telefone.

Luis Fernando Verissimo,

18 de maio de 2014 | 02h11

- Com quem você estava falando, Antonio?

- Ninguém.

- Como é possível falar no telefone com ninguém, Antonio?

O sr. Antonio apenas sorriu.

A mesma coisa aconteceu outras vezes depois disto, até que dona Julinha perdeu a paciência e pediu explicações. Com quem o sr. Antonio falava ao telefone tão carinhosamente - e se despedia tão rapidamente, quando a mulher aparecia? O sr. Antonio hesitou, depois falou.

- Está bem, Julinha. Se você quer mesmo saber... Eu tenho outra mulher. Uma amante. Nos conhecemos há 20 anos.

- O quê?!

E, diante do espanto da mulher, o sr. Antonio completou:

- O nome dela é Sulamita.

*

Dona Julinha não sabia o que fazer com aquela informação. De repente, uma Sulamita na vida deles! O sr. Antonio tinha outra mulher. Outro lar. Talvez outra família. Outra vida! Logo o sr. Antonio, que um dia declarara "Julinha, eu não sei se gosto mais de você ou dos meus chinelos de camurça". Logo o sr. Antonio, tão caseiro, tão pacato, com uma amante - chamada Sulamita!

Dona Julinha reuniu os filhos para pedir conselhos. O que deveria fazer? Seu primeiro impulso fora o de expulsar o marido de casa. Ele que fosse viver com a outra. Mas os filhos não concordaram. Um divórcio, àquela altura da vida do casal? Seria complicado. E desnecessário. Dona Julinha que aprendesse a viver com a nova realidade. Afinal, o sr. Antonio, apesar de ter uma amante durante 20 anos, escolhera ficar com a mulher. De uma certa maneira, optara pelos chinelos de camurça.

*

Durante semanas, dona Julinha não dirigiu uma palavra ao marido. Comiam em silêncio. Viam a novela em silêncio. Até que um dia, levada mais pela curiosidade do que por vontade de brigar, dona Julinha perguntou:

- Como vocês se conheceram?

- Quem?

- Você e essa... Como é o nome dela? Sulamita.

- Nos conhecemos no Cairo.

- No Cairo, Egito?

- É.

- E você alguma vez esteve no Cairo, Antonio?

- Tem muita coisa a meu respeito que você não sabe, Julinha.

E, de repente, dona Julinha se deu conta que o marido nunca estivera nem no Cairo nem em qualquer outro lugar longe dos seus chinelos. Não gostava de viajar e nunca saía de casa. Quando se encontraria com a outra se nunca saía de casa? Os telefonemas eram forjados. Ele realmente estava falando com ninguém.

- Você e a Sulamita têm filhos, Antonio?

E o sr. Antonio, distraidamente, respondeu:

- Isso eu ainda não decidi.

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