A outra festa

No canto mais sombrio do salão, um velho militar de alta patente observava a festa como um fantasma solitário perdido no tempo. De repente, alguém gritou: “Detesto essa coisa de povos indígenas”

Milton Hatoum, O Estado de S.Paulo

26 de junho de 2020 | 03h00

Eram cinco e pouco da manhã, mas a alvorada parecia distante para os convivas do jantar festivo. Políticos e militares usavam traje esporte, ou quase esportivo. Os pomposos líderes religiosos, já sem paletó e gravata, dançavam de mãos dadas numa ciranda de êxtase e louvações. 

Um homem de sorriso torto cobria a cabeça com uma pequena Estátua da Liberdade, feita de cartolina bicolor, já amassada e suja; outro comensal ostentava no peito um mini-hambúrguer de plástico, como se fosse um talismã; um terceiro lançava para o alto centauros em miniatura, esperando que voltassem ao mármore como pequenas bestas de ouro maciço. 

O uísque e o ambiente palaciano exaltavam esses três convidados distintos. O quarto conviva de escol era o mais empertigado, e tinha um nome estranho: Lesale Forsale. O olhar bovino e nada dissimulado do garboso sr. Forsale expelia o fogo da devastação. 

Mas ali havia também dançarinos românticos: um par enamorado arrastava-se ao som de uma voz tão funesta e pastosa que assassinava Strangers in the Night. O cantor cambaleava no centro de um disco de madeira com rodinhas: um palco improvisado e móvel que se deslocava para a direita e a esquerda; quando girava, o assassino vocal de Sinatra sorria com cinismo e apontava o microfone para a plateia. Era um ator execrável. 

Os casais mais velhos, sentados, cochichavam, bocejavam, cochilavam. Dois homens cavalgavam com seus cônjuges e rodopiavam emparelhados nas bordas do vasto salão, ignorando Strangers in the Night e perturbando o cochilo dos cansados. Garçons circulavam de mesa em mesa, alguns eram enxotados, outros se curvavam para escutar um pedido. 

No canto mais sombrio do salão, um velho militar de alta patente observava a festa como um fantasma solitário perdido no tempo. 

De repente, alguém gritou: “Detesto essa coisa de povos indígenas”. O cantor interrompeu a interpretação criminosa e riu do grito alucinado; do centro do salão veio uma gargalhada uníssona de quatro varões, afogados num abraço familiar. 

Lá fora, a escuridão parecia uma fronteira intransponível, mas coisas estranhas acontecem na noite e nos sonhos: um objeto caiu do teto, estilhaços de vidro se espalharam como lancetas, os convivas gritaram e se agacharam. 

Era apenas a pintura emoldurada de um busto fardado. O falso cantor perdeu a voz, os religiosos desfizeram a ciranda, os sonolentos se levantaram, os quatro varões interromperam a gargalhada... Todos olhavam para o chão, perplexos, tentando descobrir a identidade do busto pintado: um enigma no mármore do palácio. 

O velho militar, na solidão de seu canto escuro, foi o único a reconhecer o rosto pintado a óleo, que parecia olhar para todos. E só ele pressentiu a multidão lá fora, que atravessava a fronteira da noite e se aproximava do palácio. 

Não amanhecia, mas ele, o militar fantasma, viu os homens, as mulheres e as crianças que encontrara na aldeia Kejare, há mais de um século; relembrou a alegria dos Bororo, que ele admirava e respeitava, e jamais permitiria que fossem maltratados, muito menos assassinados. Viu todos eles no nevoeiro espesso da noite, que envolvia o palácio, e, quase ao mesmo tempo, recebeu o abraço e o afeto do chefe da aldeia; viu seu próprio rosto de marechal da República no rosto de sua mãe indígena. Sentiu vergonha de seus pares fardados, e asco de todos os convivas. Sorriu quando escutou cantos rituais de uma outra festa, tentou represar a amargura, a tristeza, mas o fogo e a matança do nosso tempo romperam a rigidez de seu peito. Então o marechal chorou. O ideal, o patriotismo e tudo o que ele fizera pelos indígenas e pela floresta, havia sido destruído. 

Ninguém notou o choro calado de um homem vencido pela barbárie. Os convidados estavam inertes, com o olhar baço e congelado no mármore, este imenso mausoléu dos desumanos. Não dançaram. Não podiam mais festejar a crueldade. Eram estátuas adormecidas, que a História desperta para o crime. 

Com esse susto, amanheceu. 

 

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