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A ousadia e o fascínio da obra de Rodchenko

Aleksandr Rodchenko: Revolução na Fotografia, mostra que reúne 170 imagens do grande fotógrafo a partir de amanhã na Pinacoteca do Estado, é uma ampla síntese da obra inquieta, ousada e fascinante do mestre construtivista russo e uma oportunidade única de descobrir a relação intensa, muitas vezes dramática, do artista com a conturbada cena política e social de seu tempo.

Maria Hirszman, O Estado de S.Paulo

18 de fevereiro de 2011 | 00h00

Rodchenko foi um artista múltiplo. Trabalhou com pintura, designer, ilustração. Produziu centenas de imagens para os mais diversos fins, indo dos belos registros intimistas de familiares e amigos - nos quais se percebe claramente os vínculos afetivos, o olhar cuidadoso e permeado por um toque romântico, como aponta a curadora Olga Svíblova - aos antológicos cartazes e ilustrações que fez para as obras de companheiros como Eisenstein, Viértov e Maiakosvski. O poeta era seu grande amigo e a exposição traz uma série de magníficos retratos seus, acompanhados pelas publicações em que foram reproduzidas.

Organizada mais em função de afinidades temáticas do que de uma estrutura cronológica, a exposição - que já foi exibida na sede carioca do Instituto Moreira Salles e também itinerou por capitais europeias - traz alguns dos grandes ícones de sua produção, como Retrato da Mãe (1924 e uma de suas primeiras fotografias); Pioneiro com Corneta (1930); e Moça com Uma Leica (1934).

"Nosso dever é experimentar", dizia o fotógrafo, que se notabilizou pelo uso da composição em diagonal, das alterações de ponto de vista - tomando a cena ou de pontos muito elevados ou olhando para os modelos de baixo para cima -, do recurso às tramas e jogos de sombra e luz, e também da criação de imagens extremamente perturbadoras da sociedade soviética. Mescla-se em sua obra o olhar atento e humanista para com os trabalhadores, um tom laudatório - mas também em algumas ocasiões irônico e ferino - em relação às potencialidades do homem e da máquina e também um viés crítico ao caráter totalizante e massificador vinculado à estética do realismo socialista.

"Quero fazer fotos incríveis, nunca feitas, da própria vida, absolutamente reais, fotografias simples e complexas ao mesmo tempo, que espantarão e arrebatarão as pessoas. Preciso realmente fazer isso. Assim valerá a pena trabalhar e lutar pela fotografia como uma forma de arte", escreveu ele em 1934, demonstrando clara consciência da importância e do caráter revolucionário de sua produção. Apesar da inquestionável influência que sua obra exerce sobre a fotografia modernista brasileira, raras foram as oportunidades de ver de perto sua produção. A primeira mostra de Rodchenko no País, segundo o curador de fotografia da Pinacoteca, ocorreu no fim do século 20, no MAM/SP.

QUEM É

ALEKSANDR RODCHENKO

ARTISTA E FOTÓGRAFO

Filho de um "camponês sem terra" e de uma lavadeira, alfabetizada tardiamente e que ele notabilizou durante a leitura em um de seus primeiros retratos, Aleksandr Rodchenko (1891- 1956) é figura central do construtivismo russo, com amplo reconhecimento na Rússia e na Europa, mas acaba sendo perseguido pelo sistema, acusado de formalismo, enfrentando graves dificuldades financeiras.

RODCHENKO: REVOLUÇÃO NA FOTOGRAFIA. Pinacoteca do Estado. Praça da Luz, 2, 3324-1000. 3ª/dom., 10h/17h30. Abre amanhã

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