A origem do crime organizado

Caco Souza, em 400 Contra Um, fala da gênese do Comando Vermelho

Luiz Carlos Merten, O Estado de S.Paulo

06 de agosto de 2010 | 00h00

Daniel, como o Professor. "Foi de uma entrega extraordinária", diz o diretor        

 

Nos últimos anos, a violência tem dado o tom de um certo cinema brasileiro, representado por diretores como Fernando Meirelles, José Padilha e Sérgio Rezende, em filmes como Cidade de Deus, Tropa de Elite e Salve Geral. Caco Souza soma-se agora ao trio com seu 400 Contra Um. O filme encerrou o recente Festival de Paulínia.

É "porreta". Souza conta a história da origem do Comando Vermelho, sobre como presos comuns se organizaram dentro da penitenciária, cujas celas dividiam com presos políticos, durante a ditadura. Daniel de Oliveira faz o "professor" - há sempre um professor na cadeia, que representa uma consciência do que está ocorrendo e fala pelos outros presos, articulando seu discurso.

Souza sabe que está colocando a mão num vespeiro. Afinal, seu filme chega ao circuito no momento em que há suspeita de que os ataques ocorridos em São Paulo sejam obras articuladas do PCC. Não é o Comando Vermelho, mas é outra organização criminosa. Face ao surto de violência, a maioria silenciosa é capaz de querer uma brutal erradicação da criminalidade: "Bandido bom é bandido morto." Neste quadro, Souza se recusa a fazer condenações sumárias e tenta entender o criminoso. "Não se pode pensar que o Brasil é só os Jardins ou a Zona Sul do Rio, aquelas faixas privilegiadas de Ipanema e do Leblon. Sou solidário com Fernando (Meirelles), com Padilha. Modestamente, também filmo para entender a radicalização da violência urbana no País", ele conta, numa entrevista por telefone de Belém, onde participa da campanha da candidata Ana Júlia Carepa (PT) ao governo daquele Estado.

O diretor horroriza-se com este clima de guerra civil instalado no Brasil. Agora mesmo, um office boy que estava desaparecido em São Paulo foi encontrado com sinais de execução sumária. O crime teria sido - ou foi - cometido por dois PMs que trabalhavam como seguranças no pequeno comércio de um cabo da corporação. Ele desconfiou de que o jovem - um trabalhador - poderia ser criminoso e foi o suficiente para encomendar sua morte. "Isso ocorre pelo sentimento de união corporativa e certeza de impunidade", avalia o cineasta. No filme, os bandidos se organizam dentro da cadeia. O ponto de vista é deles. Caco Souza baseou-se no livro de William da Silva Lima. Nas sucessivas entrevistas que teve com ele, o que percebeu foi o que colocou na tela - "Um clima de amizade e solidariedade como armas contra a repressão do regime militar."

O confinamento na prisão de Ilha Grande - o filme foi rodado parte no Rio, parte na penitenciária AHU, em Curitiba, no Paraná - despertava nos detentos, quais feras acuadas, o desejo de liberdade. Isso leva a outro aspecto que pode ser considerado controverso de 400 Contra Um. As cenas de assaltos a bancos passam um sentimento de euforia para o espectador. "Não concordo com essa sua ideia de euforia, mas é um tesão, com certeza. Depois de viverem confinados, aqueles homens e mulheres estão de novo na rua, e aproveitando-se disso", avalia o diretor. Mas Souza observa que olhar pelo ângulo de seus criminosos não o torna cúmplice - "O que quero evitar é a demonização. Sem essa de que vale tudo no combate ao crime. Desse jeito vamos reverter à barbárie."

O melhor de todos. Se a filmagem foi fácil, levantar os recursos, Caco Souza admite, foi um processo complicado. 400 Contra Um decolou em 2006 e só agora chega aos cinemas, quatro anos depois. O diretor só tem elogios para atores como Daniel de Oliveira e Daniela Escobar. "Ele talvez seja o melhor ator de sua geração. Ousa, muda de um papel para outro e aqui foi de uma entrega extraordinária. Entendeu minha proposta naturalista. Daniela será uma surpresa. Como aquela dondoca da TV virou essa pistoleira, muita gente vai se perguntar? Ela é uma atriz e acho que a mudança de personagem fará bem à sua carreira."

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