Claudia Schembri/Divulgação
Claudia Schembri/Divulgação

A oração universal de Roberto

Cantando em vários idiomas, o Rei transmitiu sua mensagem de tolerância

Jotabê Medeiros / JERUSALÉM, O Estado de S.Paulo

09 de setembro de 2011 | 00h00

A mesquita ao lado da sinagoga e da igreja católica, numa espécie de comboio alegórico que compunha o cenário do espetáculo. As canções em espanhol se misturando às em italiano, português e hebraico. A oliveira de papel, o violino klezmer, a bossa nova, o hino gospel. Roberto Carlos acendeu a noite como se tivesse uma menorá gigante nas mãos na noite de quarta, em seu primeiro show no Oriente Médio, em Jerusalém. Vestiu-se todo de branco e ambicionou propor um pacto de não agressão - ou, mais que isso, um armistício definitivo entre os que o pudessem ouvir nessa região em que os garotos andam pelas ruas dia e noite com jeans e metralhadoras. Mas as cerca de 6 mil pessoas que foram ao Sultan"s Pool de Jerusalém já eram convertidos, verdadeiros devotos do "Rei" Roberto Carlos.

Convertidos e devotos porque quase todo o público era de brasileiros - alguns vieram em pacotes turísticos, a maioria mora mesmo em Israel ou na Palestina, e uniram-se em corais fabulosos de apoio, como na balada Outra Vez. Se alguém não botava fé no show de Roberto no Oriente Médio, se deu mal, porque como dizia o Gilberto Gil, não costuma "faiá"esse negócio: "A força da fé nos ajuda a prosseguir", anunciou o cantor.

Mas nem tudo foram flores. "Meu inglês é meio cais do porto", disse o cantor, antes de iniciar Unforgettable, sucesso de Nat King Cole, que teve dancinha com a apresentadora Glória Maria no meio. "Dançar com a Glorinha? Um privilégio", brincou o músico. Foi, com Caruso (sucesso de Pavarotti e Andrea Bocelli), um dos momentos menos empolgantes do show, e o Rei mostrou-se pouco convicto dessas interpretações.

"Long live the king", dizia um cartaz nas primeiras fileiras. O público deu um espetáculo à parte. Para ficar no gargarejo na hora das rosas, algumas garotas tiveram de ficar de joelhos, porque a segurança não aliviou (ao contrário dos shows no Brasil e na América Latina). Entre 80% a 90% da plateia era brasileira, gente segurando cartazes como "Shalom Bahia", "Belém do Pará em Israel", gritando "Eu te amo", usando camisas do Flamengo ou do Botafogo e entoando corais imensos para canções muito conhecidas. No Brasil.

Roberto foi saudado, durante sua passagem, pela religião e pela política, pelo rabino e pelo prefeito. "A cidade do Rei David saúda o Brasil na sua independência", disse o prefeito da cidade, Nir Barkat, em mensagem no telão, antes do início do show. "Os convido para voltar no ano que vem", afirmou Barkat, o que sugere uma Operação Israel 2 em 2012. Se for verdade, os lojistas da Cidade Velha vão fazer festa, já que os brasileiros agitaram o comércio nesses dias que precederam o show.

Foi uma noite povoada de discursos. "Dezessete vezes destruída e 18 vezes reconstruída, Jerusalém é a cidade do amor, que nada pode aniquilar", disse a apresentadora Glória Maria, que chorou no início da apresentação do show e recebeu beijos e uma rosa do cantor.

"Cantar é uma forma de oração", discursou o cantor. "Aqui, em Jerusalém, entre dois desertos, um milagre aconteceu. Aqui, nasceu Jesus." Na plateia, alguns famosos como Tom Cavalcanti, Regina Casé, Bia Aydar, empresários como João Dória Jr. e Pedro Sirotsky, e muitos fãs de carteirinha, como a médica Esther Longman, de 90 anos, do Recife, que veio a Jerusalém de cadeira de rodas.

Roberto ousou chamar a atenção dos lados conflituosos dessa parte do mundo para uma mensagem universal de tolerância, sem medo de parecer naïf (e ele é). Foi rebuscar no baú, numa música que ele e Erasmo compuseram quando eram "meninos", segundo afirmou, a mensagem que queria. A música parecia aludir diretamente aos conflitos entre judeus e palestinos. Era Pensamentos, canção de 1982 que nunca entrava nos repertórios de seus shows recentes. A letra diz: "Quem me dera que as pessoas que se encontram/Se abraçassem como velhos conhecidos/Descobrissem que se amam e se unissem na verdade dos amigos/E no topo da bandeira/Estaria no infinito iluminada/Pela força desse amor/Luz verdadeira/Dessa paz tão desejada/Se as cores se misturam pelos campos/É que flores diferentes vivem juntas".

Antes de cantar Eu Quero Apenas (Um Milhão de Amigos), ele elogiou a cidade na qual convivem judeus e muçulmanos: "Cada cor tem seu valor, mas quando as cores estão juntas, o quadro fica muito mais bonito". Seus números em língua estrangeira foram os pontos mais baixos do show.

Finalmente o cantor arriscou-se em Jerusalém de Ouro, música que cantou em português e hebraico, com a ajuda de uma orquestra de cordas e um coral israelense. Segundo contou, a canção lhe foi mostrada há alguns anos pelo apresentador Salomão Schvartzman. Foi muito aplaudido. Brasileiros que moram em Israel e israelenses diziam que o hebraico dele estava perfeito.

Às 22h30, ele cantou Jesus Cristo e jogou as rosas que beijava para a plateia, um rito costumeiro, mas que pareceu excêntrico e colorido no meio da profusão de cartazes brasileiros. Como era uma gravação para a TV Globo, Roberto teve de voltar ao palco após o show concluído e refazer duas canções e meia, atendendo a pedido do diretor Jayme Monjardim. Tirou de letra.

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