A onda que se reergueu no mar

A boa surf music está vivinha da silva. E muito graças a esse jovem aqui

Roberto Nascimento, O Estado de S.Paulo

24 de julho de 2010 | 00h00

Guitarras em fúria, odes ao niilismo, neblina de "ganja". Não é bem o que os bons garotos do Beach Boys imaginavam para o legado do rock sorridente e boa praça que produziram no início dos anos 60, mas é um fiel retrato de King of the Beach, o incensado segundo álbum do Wavves, que tem feito a cabeça de moderninhos no verão americano deste ano, com uma reciclagem eletrizante do som de Brian Wilson e companhia.

King of the Beach é rock praiano com harmonias vocais e levadas que vão do frenético ao preguiçoso, tocadas através de um amplificador danificado que cospe a efervescência adolescente de Nirvana e Green Day. O nome do enfant terrible é Nathan Williams, bicho grilo californiano de carteirinha, daqueles que zombam de saradões e estão mais interessados em fumar um baseado do que pegar ondas e sorrir para as gatinhas.

A leseira em nada compromete a vitalidade de seu talento. Em 2009 gravou sozinho, no quarto dos fundos da casa de seus pais, em San Diego, o homônimo Wavves, feito apenas com um software para músicos amadores. A produção escrachada do disco lembrou os tempos pré-digitais do grunge e chamou a atenção da mídia independente. Quando virou hit, destoou da estética arrumada de bandas que fazem sucesso no circuito cult e tornou-se parte de um questionamento sobre a integridade de uma vertente do rock (Franz Ferdinand, Arcade Fire, Spoon) que foi, por muito tempo, periférica, mas hoje lota estádios e faz trilhas sonoras de comerciais de computadores e carros importados.

Para King of the Beach, que pode ser ouvido no site www.myspace.com/wavves, Williams deu um trato em seu som. Chamou a banda do falecido roqueiro Jay Reatard e entregou a produção a Dennis Herring, que já trabalhou com Elvis Costello e Counting Crows. Herring tem a mão leve e, sabiamente, não esfregou o cascão sonoro que dá personalidade ao Wavves. Também deixou que aflorasse a influência de Phil Spector, o famoso produtor que revolucionou a indústria musical nos anos 60 com batidas características e sobreposição de instrumentos.

As referências nostálgicas presentes em Wavves há tempos figuram no pop independente, mas, no último ano, tomaram forma de um revival por influenciarem uma proliferação de bandas com nomes praianos (Beach House, Beach Fossils) com uma sonoridade lânguida, grudenta como maresia (Real Estate).

Uma das mais elogiadas é Best Coast, liderada pela cantora Bethany Cosentino, que faz um contraponto interessante a Williams (no Twitter, os dois trocam gentilezas e alfinetadas, como adolescentes.)

Artisticamente, Cosentino parece não ter tempo para as molecagens praticadas por Williams. Seu som traz um toque confessional cuja proposta é semelhante ao de girl groups como as Shirelles e as Shangri-las, ambos da época dos Beach Boys (o single Boyfriend lembra a intimidade de diários adolescentes presente em hits como Will You Love Me Tomorrow e Leader of the Pack). Seu álbum de estreia, Crazy for You, sai nos EUA essa semana. As faixas que já estão na internet (www.myspace.com/bestycoasty)trazem boas melodias e um pulsar molenga como o torpor de um dia ao sol.

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