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A olho nu

Na era da ópera em DVD, o maestro belga René Jacobs grava A Flauta Mágica, de Mozart, em três CDs ''viajantes''

João Marcos Coelho, O Estado de S.Paulo

22 de janeiro de 2011 | 00h00

"O ouvido tem um olho: o olho do ouvido", escreve Dominique Jameux, refinado DJ clássico da Radio France Musique durante 36 anos, de 1972 a 2008, em um fascinante livro de memórias (Radio, Fayard, Paris, 2009). "O ouvido vê. Especialmente quando escuta música. E melhor do que nunca quando a ouve no rádio".

Esta magia é particularmente aguda no domínio da ópera, quando a ouvimos no rádio e, eu acrescentaria, também em disco. Jameux dá o exemplo da Traviata: "Ouço na rádio FM a transmissão de uma Traviata montada no Covent Garden de Londres. Já vi 17 vezes esta ópera. Conheço tudo sobre ela. Mas esta Traviata que "vejo" não é uma nenhuma das 17, é uma 18ª., diferente do espetáculo real do Covent Garden, mas que, para mim, neste instante, é a verdadeira. O olho do ouvido não requer a memória, mas a exclusividade". É uma Traviata só dele, que sua imaginação visual construiu.

O maestro belga René Jacobs, 64 anos, fez de uma aparentemente intransponível desvantagem - gravar uma ópera em áudio no estúdio num momento em que só se consome ópera em vídeo - o seu maior trunfo. Certamente levou em conta as palavras de Jameux: convida o distinto público a pôr em ação "o olho de seus ouvidos". Ao mesmo tempo, restitui o significado original de uma das obras-primas líricas de todos os tempos, A Flauta Mágica, de Mozart (caixa com 3 CDs Harmonia Mundi).

Numa carta, o compositor escreve ao pai que a Flauta deve atrair ao mesmo tempo "a adesão tácita" dos intelectuais maçons vienenses e ser capaz de provocar riso frouxo e gargalhadas em todo tipo de público. É uma autêntica "singspiel", basicamente uma peça de teatro com música. O texto está no centro do drama. O mais delicioso em Jacobs é que ele diz que não precisa justificar nada, porque o objetivo era uma gravação, e não uma performance: "Quando você acrescenta os diálogos falados, a Flauta fica bem próxima de uma peça radiofônica, que os alemães chamam de hörspiel".

Ao ouvir esta versão, fica claro que a música depende mesmo do texto falado e perde muito de seu impacto quando este é suprimido - prática habitual em montagens e gravações modernas, com o argumento de que o libreto de Schikaneder é ruim. Pois Jacobs aposta justamente na qualidade do libreto. E acrescenta, numa tirada genial: "Numa gravação, uma peça de teatro com música deve transformar-se em peça "radiofônica". É um desafio apaixonante tornar os diálogos tão vivos que o ouvinte não tenha vontade de apertar o botão de avanço em seu controle remoto para chegar logo à música seguinte. Era preciso criar uma unidade natural entre os diálogos falados e as árias ou os conjuntos cantados. Os cantores devem manter o timbre cantado quando falam, e vice-versa".

Acredite, ele consegue isso de modo fenomenal com um elenco jovem, por isso mesmo mais maleável a seus propósitos. Por isso as falas soam atraentes, mesmo para quem não entende alemão, e empurram a música para andamentos mais rápidos. Jacobs usa bastante o pianoforte para música incidental sob as falas, inclusive tocando informalmente melodias de outras árias ("Mozart regeu a estreia, em setembro de 1791, do teclado") e - sedutora novidade - convocou o percussionista da Berlin Akademie für Alte Musik para reproduzir um arsenal de ruídos: trovões, tempestades, água, pássaros, barulho de animais, portas batendo, ruídos atmosféricos, como nas novelas radiofônicas de antigamente (e nos melodramas tão populares na Europa do século 19). Mas proibiu equipamentos eletrônicos. Só permitiu recursos acústicos.

Jacobs esclarece que o libreto está cheio de indicações e também indica lugares onde a música deve estar presente nas falas. Ora, raciocina, deve ser música improvisada no espírito da época.

Os destaques propriamente musicais são muitos, além do coro de câmara da RIAS e da excepcional orquestra da Akademia für Alte Musik Belin. A soprano Anna-Kristiina Kaappola, por exemplo, está eletrizante numa versão acelerada da ária da Rainha da Noite; Marcos Fink despe Sarastro de sua grandiloqüência e o traz à terra; o mesmo faz Daniel Schmutzhard com Papageno. A Pamina de Marlis Petersen é uma delícia. As três damas são um show à parte, até pela capacidade de transferir inflexões da voz cantada para as falas, e vice-versa, como quer Jacobs.

A "viagem" sonora é fantástica, sobrenatural. Num vídeo promocional de 9 minutos disponível no youtube, Jacobs comenta, rege a gravação, emociona-se, ri - sempre sentado à frente de uma mesa de edição de som.

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