A odisseia de um construtor de quadros

Aos 85 anos, completados agora em junho, o carioca Eduardo Sued é fiel ao hábito de ir diariamente a seu ateliê no Rio. "Tomo café e fico ouvindo as cores, como se não quisesse nada, totalmente, disponível. O filósofo Kierkegaard diz que as portas do céu só abrem para fora, então, não adianta forçar nada: só quando for para acontecer, independentemente da sua vontade, acontece", diz, de um só fôlego, o pintor.

Camila Molina, O Estado de S.Paulo

27 de junho de 2010 | 00h00

Sentado numa cadeira improvisada durante a finalização da montagem de sua exposição no Centro Universitário Maria Antonia, Sued falava ao Estado sobre a maneira misteriosa com que a cor aflora em sua obra. Construtivista por convicção - "construo quadros", afirma, simplesmente - Sued consegue agregar à forma rígida da geometria texturas, o tridimensional e, ainda, uma vibração cromática única e surpreendente usando vermelho, dourado, violeta, cinza, amarelo, etc., e, mais ainda: o negro e o preto.

Sim, o negro e o preto são cores diferentes para Sued. "Estava envolvido com elas ultimamente, mas não é nada funerário, viu?", brinca o artista. Quando o coordenador de artes visuais do Centro Maria Antonia, João Bandeira, convidou Sued e o crítico e curador Paulo Sergio Duarte para realizarem uma mostra do artista na instituição, os dois pensaram para a ocasião uma exposição de obras recentes, a maioria delas, inéditas, criadas, principalmente, entre 2008 e 2010. "É uma obra muito jovem de um senhor de mais de 80 anos que mantém os meios tradicionais e vai também para outros caminhos. Seu trabalho é escultura e pintura em vários momentos, uma experiência muito rica", afirma Duarte. Mas, essencialmente, como Sued estava ligado àquelas duas cores, a mostra, com 22 pinturas - algumas, tridimensionais, objetos ativos como os de Willys de Castro -, 6 desenhos, e que fica em cartaz até 10 de outubro, ganhou o título de Em Torno do Preto/Negro.

Poeta das cores, o bem-humorado Sued não sabe o que seria uma cor difícil. Até mesmo o amarelo voluntarioso, "um autista", "um marginal como o diabo que não se liga a ninguém", define o pintor, chega às suas obras naturalmente, em um sopro, quando ele está lá em seu ateliê à espera das tonalidades. Mas ele está imerso no preto e no negro, cores que se originam uma da outra.

"O preto é a presença, o opaco; o negro, a transparência. Quando você mergulha na água, pode se aprofundar. Se você mergulhar no preto, é como se batesse no fundo, já com o negro não tem isso: seria como o preto sem fundo - já pensou em uma coisa que não tem fundo?", explica o artista. Sendo assim, tem sido para Sued uma odisseia diária de construções em que ele contrasta o espesso e o liso e formas recortadas com cores que aterrissam em suas obras sem hora marcada.

Inteligência poética. Sued cursou a Escola Nacional de Engenharia do Rio entre 1946 e 1948, mas a abandonou para ser pintor. Estudou desenho e pintura com Henrique Boese (1897- 1982) e entre 1951 e 1953 foi viver em Paris, o que contribuiu para se tornar um "picassiano", diz Paulo Sergio Duarte - mas Sued também já definiu o colorista Paul Klee como uma influência -, nas décadas de 1950 e 60.

Entretanto, é a partir de seu retorno ao Brasil, em 1953, com a contribuição da "presença forte do construtivismo na melhor arte brasileira desse período", que o artista promove uma "radical transformação" em sua linguagem, define o crítico, fazendo desaparecer "não só as figuras, como o expressionismo planar derivado de toda a elaboração das lições anteriores". "Inicia-se uma aventura inédita na história da pintura no Brasil, que o coloca ao lado de Volpi, Dacosta e Maria Leontina, como portadores de uma poética original que não se conforma aos dogmas citados por programas estéticos e fórmulas rígidas. A pintura se estrutura de dentro para fora, primeiro, nos anos 70, numa trama aparentemente simples, sem nunca abrir mão da presença do sujeito no ato pictórico", continua Duarte. Nesse caminho, Sued ainda foi um professor de fato, dando aulas na Escola de Arte da Faap, em São Paulo, e no MAM do Rio.

"No início, fiz trabalhos figurativos, mas tudo foi decantando e a figura perdeu o sentido para mim. Por que pintar para uma pessoa ver uma coisa em um quadro? Quer ver um cavalo, veja na fotografia. A pintura é outra coisa, não é representação, evocação do conhecido", arremata Eduardo Sued.

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