A obsessão humana por um paraíso utópico

Babel, texto ''futurista'' da italiana Letizia Russo, fala de insatisfações

César Augusto, O Estado de S.Paulo

29 de outubro de 2010 | 00h00

Babel, texto da dramaturga italiana Letizia Russo, direção de Alvise Camozzi, com Caroline Abras e Rodrigo Fregnan, é um espetáculo em que a tendência para a ficção científica se mostra apenas como pretexto para discutir a incomunicabilidade e a impossibilidade da salvação da condição humana.

O espetáculo conta a história da interdependência entre a bailarina Boccuccia (Caroline Abras) e Falena (Rodrigo Fregnan). Ambos vivem num tempo fictício e futuro, em Babel, uma espécie de condomínio-mundo imenso, onde as pessoas são separadas hierarquicamente e em que uma pessoa pode comprar a outra, assumindo-a como sua propriedade. Eles têm uma obsessão em comum: encontrar e tomar a N.A.V.E. (Neurologica ad Apparitiones Visionesque Essentia), uma espécie de passaporte para outra realidade, um mundo utópico, talvez, no qual as aparências se dissolvam e se vislumbre uma possível essência das coisas. Na empreitada para conseguir a N.A.V.E., Falena e Boccuccia escapam, mas Ferro, seu namorado e irmão dele, morre e ela perde um braço.

O texto de Letizia Russo parece ter como linha de força o desejo de escapar do mundo e, mais especificamente, da condição a que Falena e Boccuccia estão submetidos. As contradições de ambos são claras. Ela não deseja ser propriedade de ninguém, mas sua deficiência a deixa sem escolha. Por isso, precisa dele, mas não quer precisar. Ele, por sua vez, não quer fazer dela sua escrava. Compra-a para protegê-la, porque a ama, mas não deixa de controlá-la. Na dimensão da relação de ambos, esse jogo cria um pêndulo dramatúrgico e seus desejos ora se complementam ora se interditam. Na dimensão da trama, o que move ambos é a obsessão pela N.A.V.E. para chegar a essa instância utópica que supostamente os livrará desse enclausuramento em si mesmos, dessa claustrofobia espiritual, que os subjuga. Mas parece que, para ser livre, é preciso pagar um preço: ela mata a dona da casa em que dança para se tornar a próxima dona; ele mata o vizinho, pega seu dinheiro e compra votos para se eleger (Aqui, a autora encontra espaço para discutir política de maneira sutil, sem ser panfletária nem se deixar levar por qualquer tipo de maniqueísmo ou defesa unilateral de uma ideologia) e conseguir a N.A.V.E., o que, de fato, acontece: ambos tomam a N.A.V.E. e chegam a essa dimensão utópica. Uma vez nesse lugar, que é um não-lugar, Boccuccia se mata, se jogando do carro e Falena se mata para se unir a ela.

Contrapontos. A direção de Alvise Camozzi conduz esse universo por meio do contraponto entre o uso não naturalista de cenário, luz e som e a interpretação naturalista dos atores. O cenário de William Zarella Jr., um pequeno cubo branco, de fundo negro infinito, sobre terra batida (lembrando Anish Kapoor) parece reforçar a sensação de desconforto e claustrofobia das personagens, como se o externo revelasse o interno, deixando também espaço para que a plateia imagine o que seria esse mundo apocalíptico nessa Babel. A luz de Guilherme Bonfanti é precisa e salienta essa atmosfera. A trilha sonora de Henrique Iwao introduz sons que insinuam um caos externo, ajudando a inserir a plateia nesse universo, com uma longa intervenção no início, depois com intervenções mais breves nas transições de cenas.

Em relação às interpretações, Rodrigo Fregnan e Caroline Abras sustentam a linha de interpretação através de um jogo de estímulo-resposta em que o uso da respiração é a base para a sustentação dos sentimentos das personagens, deixando, com isso, espaço para as sutilezas, sem impor as personagens, mantendo o nível dialético do texto.

No geral e afinal, o que parece ficar do espetáculo é uma sensação de que não há salvação e a incompletude é a sina da condição humana.

BABEL

Sesc Pinheiros. Teatro Paulo Autran. Rua Paes Leme, 195, telefone 3095- 9400. 6ª e sáb.,

21 h; dom., 18 h. R$ 16.

Até 7/11

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