Tasso Marcelo/AE
Tasso Marcelo/AE

A obsessão da mulher pelo fusca

'Multimídia', nova peça de Jô Bilac trata de perdas em texto marcado por delírios poéticos e coloquialismo

Roberta Pennafort, O Estado de S.Paulo

07 Abril 2011 | 00h00

RIO - Na noite de 22 de março, o dramaturgo Jô Bilac chegou à cerimônia de entrega do 23.º Prêmio Shell de Teatro, no Rio, de carona num Fusca laranja de 1972. Não era excentricidade do autor, que aos 26 anos sairia dali sorrindo um sorriso metálico, consagrado como o melhor do ano passado, pela peça Savana Glacial (ele usa aparelho nos dentes, o que contribui para a imagem de garoto prodígio). Era consequência de seu novo e inusitado projeto, A Dona do Fusca Laranja, que estreia amanhã no Oi Futuro do Flamengo.

Autoficcional e multimídia, o espetáculo é, na verdade, tão seu quanto de Camila Rhodi, a atriz performer Dona do Fusca - e quem lhe deu carona para o Shell. Amiga de Jô desde que ele era uma promessa da Escola de Teatro Martins Pena, foi Camila quem teve a ideia de escrever e reviver situações que passou dentro do carro que tanto amava, e que lhe foi roubado em 2008, no centro do Rio.

"Eu já tinha o projeto havia muito tempo. O roubo acabou sendo um mote para falar de perdas. Eu e o Laranjinha (apelido do Fusca) éramos uma dupla, não conseguia ficar longe dele. Para a peça, compramos outro, e mandamos para o mecânico reconstituir igualzinho. É um clone", brinca Camila, que, no original, deu muita carona a Jô.

Daí para a peça foram anos de adiamentos, por conta de outros trabalhos. Até propuseram a ideia ao curador do Festival riocenacontemporânea, Fabio Ferreira, mas o projeto, então uma videoinstalação, não foi aprovado. Logo depois veio o roubo. Agora, Ferreira é o diretor da peça. "Nos ensaios, a gente saía de Fusca e Camila ia contando histórias. Ensaio de performance é de criação, e não de repetição", conta o diretor, ressaltando que se trata, sim, de uma egotrip, mas de temática universal.

A ação se dá em três momentos: Camila estaciona o Fusca na porta do Oi Futuro às 17 horas. Os três primeiros espectadores a chegar para pegar senha - a peça é gratuita - vão com ela rodar por ruas do Rio que estavam no itinerário do Laranjinha (no centro, Lapa, Santa Teresa), durante 40 minutos. Uma câmera filma os quatro e transmite as imagens para o saguão do Oi Futuro, onde os que forem chegando acompanham tudo.

Depois Camila volta ao centro cultural, os passageiros desembarcam e ela segue nova viagem, sozinha. Percorre lugares significativos para a "dupla": onde viu o carro pela primeira vez, a praça do roubo. É filmada enquanto escuta os cassetes que fizeram parte da trilha do Fusca, telefona para amigos. No Oi Futuro, o público assiste a vídeos do artista visual Ricky Seabra e a uma performance do músico Siri. Às 20 horas, de volta, Camila dá início a outra performance, com textos falados e gravados.

"É das coisas mais difíceis que já fiz. A primeira experiência com algo performático, e com a personagem na minha frente", conta Jô, com cara de perdido. "Tenho dificuldade de subverter o esquema da escrita, de clímax, personagens, enredo. É angustiante! O que me move é entrar nesse lugar da experimentação."

Delírios poéticos e coloquialismos encontraram espaço em seu texto. Ao tentar salvar o Fusca do assaltante, Camila corre feito louca, com a "coragem de mãe que tira filho da boca de jacaré". "Agradecida por não ser fumante" e "orgulhosa por levar meu ioga a sério".

A atriz conta que ficou um ano chorando ao ver Fuscas na rua, que se sentia como quem perdera um ente amado. Não que seja louca: há quem tenha "ciúme de máquina de lavar e até atração sexual por socador de alho". Em comum com os personagens de Jô, Camila tem a obsessão, o pendor para o melodrama. O reconhecimento do autor emociona a amiga, que lembra dos tempos dele como o preferido dos atores da Martins Penna - "todos só queriam encenar Jô".

O talento de Giovanni Ramalho Bilac se revelou cedo mesmo. Aos 19 anos já chamava atenção com o texto de estreia, Sangue na Caixa de Areia; Cachorro [ ]e [/ ]Rebu tiveram boas críticas e o colocaram num lugar de destaque na novíssima geração de autores cariocas.

"O Shell foi incrível, no sentido de inacreditável. Parece algo distante para as produções pequenas, que não têm Felipe Hirsch, Claudio Botelho... Foi quase como um "Não desista!""

Em São Paulo, Jô está em cartaz com Savana no Sesc Belenzinho; no dia 28, estreia Limpe Todo Sangue Antes Que Manche o Carpete, no Sesc Consolação.

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