A obra rigorosa de Jacques Rivette

Mostra no CCBB traz 26 filmes do cineasta, um dos integrantes de primeira hora da nouvelle vague

LUIZ ZANIN ORICCHIO, O Estado de S.Paulo

03 de julho de 2013 | 02h08

Bastaria a presença de um inédito no Brasil - 36 Vistas do Monte Saint Loup (quinta-feira, 19h30) para justificar a mostra Jacques Rivette - Já Não Somos Inocentes, de hoje a 21 no Centro Cultural Banco do Brasil.

36 Vistas foi apresentado em 2009 no Festival de Veneza e até agora não despertou o interesse de nenhum distribuidor brasileiro. Talvez não seja mesmo filme fácil, palatável para o atual gosto cinematográfico. Mas é um beleza. Beleza estranha, diga-se. Na "história", uma trupe de circo mambembe, provavelmente em sua última viagem, chega a uma cidade no sul da França. Kate (Jane Birkin), filha do dono, junta-se ao grupo. A trupe atrai a atenção de um italiano em passagem, vivido por Sergio Castellitto. Mas talvez ele se interesse mais por Kate do que pelo resto. Talvez.

A trupe exibe-se para uma plateia vazia. O tom é melancólico. Adivinhamos, ou melhor, pressentimos que existe alguma coisa no passado de Kate. A atmosfera é de thriller, se damos importância ao mistério dos sentimentos humanos. Como sempre, a filmagem de Rivette é límpida, sem truques. Maravilha.

Mas, claro, há muito mais a ver. Esta é, até aonde a memória pode alcançar, a mais completa retrospectiva de Jacques Rivette no Brasil. Lembremos, Rivette é um dos cinco nomes centrais da nouvelle vague; ele e mais Godard, Truffaut, Chabrol e Rohmer. Alteraram o status do cinema de autor nos anos 1950 e 1960, primeiro como críticos dos Cahiers du Cinéma; depois, como realizadores. Têm discípulos fiéis (e não raro fanáticos) até hoje.

Se a retrospectiva contém o mais recente longa-metragem de Rivette, traz também o primeiro, Paris nos Pertence, de realização problemática (1958 a 1961), e decodificação idem. Em preto e branco, constrói uma trama conspiratória que soma o impulso de liberação a temas da política internacional do momento. Lembra aquele frescor dos primeiros trabalhos da nouvelle vague (filmagem nas ruas, câmera na mão, etc.) e, ao mesmo tempo, indica que Rivette era dos mais intelectualizados do grupo inicial.

Logo no primeiro dia, ao lado de Paris nos Pertence, temos os documentários sobre Jean Renoir, o cineasta ídolo da turma. Como se sabe, o grupo foi fundado pela negação do cinema francês a ele contemporâneo. Como toda revolução, esta precisava de uma ruptura e também de um pai fundador para estabelecer uma linha evolutiva; Renoir era o nome. No documentário Jean Renoir, o Patrão, dividido em três partes, estuda-se essa linha de continuidade.

Não deixe também de ver Rivette em seu diálogo com a literatura francesa. De Denis Diderot, adaptou A Religiosa. E, de Honoré de Balzac, A Bela Intrigante e Não Toque no Machado. Três obras rigorosas, longas, sem nenhuma concessão.

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