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A obra poética da humanista Lina Bo Bardi

Ex-assistente se recorda da ousadia que marcava o trabalho da arquiteta

Marcelo Ferraz, Especial para o 'Estado'

29 de abril de 2012 | 03h08

O dia 20 de março marcou os 20 anos da morte de Lina Bo Bardi. Em 2002, escrevi um artigo para o jornal O Estado de S.Paulo intitulado Dez Anos Sem Lina. Agora, ao contrário, escolho fazer um artigo comemorando mais 20 anos com Lina. Explico.

O nome da arquiteta e o interesse que sua obra tem despertado em estudiosos de várias áreas e no público em geral, em todos os cantos do planeta, só cresceram nestes últimos anos.

Transformada em uma Lina mais palatável e feminina, até dócil, a figura complicada da profissional intransigente e dura, que preferia ser chamada de "arquiteto", sempre tão difícil de digerir pela mídia e por sucessivas gerações de colegas, está agora em toda parte, na agenda cultural, em publicações as mais diversas, em debates acadêmicos, em exposições e simpósios.

Será que a morte e o tempo estão fazendo de Lina "salsinha, que vai em todo prato" - como ela mesma dizia com ironia? Será que vale a máxima que diz que quem morre já não incomoda mais?

Arrisco afirmar que o rastro deixado por Lina, a estrada pavimentada por ela, é tão forte e rica quanto a imagem que ela mesmo fazia do Brasil quando dizia apaixonadamente: "Que país incrível... Você anda pelas ruas pisando em pedras preciosas."

A obra de Lina é também povoada de joias e, cada vez que a ela voltamos, novos e muitos caminhos se abrem: saídas para crises e entradas em novos mundos poéticos de espaços públicos e de convivência humana. E nela não cabe diluição. A mensagem de Lina era clara... e dura.

No momento atual, quando é notável a falência que vivenciamos no campo da arquitetura praticada e apregoada pelo grupo de arquitetos do chamado "star system", Lina tem muito a contribuir. A crise econômica quebrou as pernas dos arquitetos malabaristas, contorcionistas e mágicos, colocando-os na ridícula situação de quem só sabe "fazer bonito" com muito recurso financeiro.

Vejam o que foi essa avalanche de projetos mirabolantes das últimas décadas, criados nos países de economia forte e vendidos por todo o planeta como modelo a ser seguido independentemente da diversidade cultural ou socioeconômica de cada rincão onde se assentaram.

São exemplos de uma arquitetura sem alma e espírito - ou o que quer que possamos nomear como algo que ressoe no "coração" de pessoas e comunidades -, feitas com uma enormidade de recursos financeiros e sociais que não se justificam. É uma arquitetura rica, porém pobre, como a pobre menina rica, de Vinicius de Moraes.

É claro que há exceções, projetos exemplares que merecem ser estudados e difundidos. Mas o rolo compressor do movimento da "arquitetura show" é forte, mesmo que decadente. Ainda mais se associado ao espírito "lambe botas" que também é forte por essas bandas de cá.

A obra de Lina é vigorosamente contrária a toda essa parafernália midiática e se pauta por outros critérios e prioridades. Sua obra foi sempre guiada pela economia - de meios, materiais e trabalho. Este é o fundamento que impulsiona o desenvolvimento científico e técnico. Economia e rigor. No mundo moderno, populoso e ainda muito injusto, com enormes desafios para prover conforto ao hábitat humano, estes são parâmetros indispensáveis.

Em Londres, uma pequena mostra apresentada no AA (Architectural Association), com curadoria de Ana Araujo e Catalina Meijia, faz pensar. A mostra se chama Lina and Gió: The Last Humanists. Trata-se de uma exposição comparativa (ou aproximativa, para ser mais preciso) de certos aspectos das obras de Lina e Gió Ponti, grande arquiteto italiano e seu mestre. Em seu estúdio milanês, recém-formada, ela teve seu primeiro emprego nos difíceis anos da Segunda Grande Guerra.

A pequena exposição, que ocupa duas salas do AA (térreo e primeiro piso) prima pela escolha e qualidade da informação, deixando de lado a quantidade. É delicada e calma, merece ser visitada e apreciada com gosto de quem quer entender o tal título "os últimos humanistas".

Na mostra, ainda no andar térreo, passeamos por desenhos originais de Ponti (e alguns poucos de Lina), onde se vê sua enorme influência sobre ela na maneira de representar; poucos móveis, sem deixar faltar as cadeiras Superleggera de Ponti e a Girafa (superpesada), de Lina; fotografias e anotações em blocos e cartas de ambos; um pequeno vídeo com Adriana Calcanhotto intercalando suas canções com leitura de textos de Lina quando do relançamento do livro Lina Bo Bardi, no Sesc Pompeia; objetos e ex-votos colecionados por Ponti em confronto com publicações e textos de Lina sobre cultura e arte popular; numa parede, o forte e ainda vivo documentário de Aurelio Michiles e Isa Grinspum Ferraz, realizado em 1993, sobre Lina e o Brasil. No primeiro pavimento apenas fotografias de Iñigo Bujedo, clicadas recentemente no Sesc Pompeia. Belíssimas fotografias de grande e médio formato revelando novas visadas e novas cenas do tão conhecido e utilizado centro. Um olhar muito especial. É isso!

A retomada do termo "humanista" para falar de Lina e sua obra é precisa e oportuna dentro desse panorama atual - que rapidamente tentei traçar acima - de uma arquitetura anacrônica, sem claros fins e funções, incluindo aí uma das mais nobres, a poética. Lina fazia questão de se intitular humanista, ligada às lutas e conquistas sociais e libertárias do século 20. Mas o termo caiu em desuso e foi sumindo do panorama midiático. A pequena mostra em Londres cumpre seu papel de delicado alerta ao andamento das coisas no mundo da arquitetura e do design. Bastou mostrar dois grandes arquitetos que, por incrível que pareça, ainda vivem em suas criações e têm muito a dizer e contribuir com a busca de conforto para os humanos. Bela comemoração dos 20 anos.

Passear pela obra de Lina - espaços, escritos, desenhos ou objetos - nos dá a nítida sensação de que estes foram mais 20 anos em sua companhia. E, para não deixar por menos, como ela nunca quis, queremos vivos seu incômodo, sua intransigência e indignação, e por muito mais tempo, no combate à mediocridade e à hipocrisia que andam soltas por aí.

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