A NY dos anos 1920 no traço de Torres García

"Primeira impressão (que seguramente terei de retificar). Plástica. Interessantíssima para um artista moderno. Mil formas novas em movimento que chega ao paroxismo. Superfícies enormes com mil orifícios retangulares. Escadas descendo em ziguezague. Planos em movimento vertiginoso." A descrição, do artista uruguaio Joaquín Torres García (1874-1949) é de Nova York, cidade na qual ele passou apenas dois anos, entre 1920 e 22, mas que o impactou de forma indelével.

Roberta Pennafort / RIO, O Estado de S.Paulo

04 de maio de 2010 | 00h00

Em cartaz na Caixa Cultural, no Rio, até 13 de junho, Torres García - Traços de Nova York, exposição montada pelo Museo Torres García, de Montevidéu, e com curadoria de Jimena Perera e Alejandro Díaz, seus bisnetos, traz aquarelas desse período nunca antes exibidas - nem mesmo em seu país. Trata-se de um caderno que o artista levava aonde quer que fosse durante sua temporada em Manhattan. Desenhava primeiro a lápis e depois coloria. O frenesi das ruas, com seus carros, bondes, ônibus e carroças, o vaivém das lojas, a movimentação de navios no Rio Hudson, os engravatados de Wall Street, as propagandas espalhadas pelo alto dos prédios - nada escapava à sua observação atenta.

Nascido em Montevidéu, ele se transferiu com a família para Barcelona aos 17 anos. Lá, estudou e começou a criar. Foi para a América movido pela curiosidade quanto à modernidade de sua metrópole. "NY é um acontecimento", acreditava, e queria ver para crer. Acabou que foi na cidade que Torres García deu uma virada na maneira de pensar e fazer arte.

"Em NY ele começou a desenvolver o que viria a ser o universalismo construtivo", diz Fernanda Terra, cocuradora da exposição. A proposta era de construir algo puramente abstrato, concreto e universal, numa linguagem compreensível a todos.

A opulência americana acabou por incomodá-lo e a volta à Europa, onde se juntaria às vanguardas da época, se deu em seguida. Por volta de 1927, entrou em contato com a obra dos holandeses Mondrian e Van Doesburg, o que foi de grande importância em sua busca pelo espaço plástico puro, no qual o valor simbólico da forma é sublinhado.

"Juguetes". Além dos cadernos de aquarelas, vieram ao Rio também óleos, diários ilustrados, colagens e os interessantíssimos "juguetes de arte", brinquedos articulados, em madeira, que ele criou pensando nos três filhos. Também por eles o artista teve de trabalhar bastante em NY - criou cenários para espetáculos da Broadway, que vivia a ebulição do pós-guerra, fez retratos de personalidades, capas de livros e desenhos para peças publicitárias, expostos aqui numa pequena porém significativa amostragem.

A última individual de Torres García no Rio havia sido há 32 anos, no Museu de Arte Moderna. Em 2007, o Instituto Tomie Ohtake montou, em São Paulo, com o Museo Torres García, mostra com foco em outra fase de sua obra. Localizada no centro histórico de Montevidéu, a instituição recebe 85 mil visitantes por ano.

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