A nudez

Angela Merkel aparece numa foto, jovem, em nu frontal, com duas amigas numa praia

Marcelo Rubens Paiva, O Estado de S.Paulo

25 de agosto de 2018 | 02h00

A Angela Merkel, como muitos alemães, adepta do nudismo, aparece numa foto, jovem, em nu frontal, com duas amigas numa praia. Governa a maior economia da Europa desde 2005. O partido? União Democrata-Cristã. Sua carreira política nunca foi abalada pela “afronta puritana”.

Muitos compravam a revista francesa Photo, para xeretar o nu artístico que costumava vir acompanhado de anúncios de lentes, filmes, tripés e câmeras. Francesas apareciam nuas em filmes da Nouvelle Vague. Vão à praia e piscinas públicas de topless, liberdade que uma mulher brasileira não consegue exercer nos nossos 7,4 mil quilômetros de litoral sem ser assediada.

Glauber Rocha atendia nu jornalistas e amigos. Por vezes, com um baseado na boca. Meu pai andava nu pela casa. Por vezes, cobria as partes com o jornal. Colecionava a Playboy americana. Empilhava-as sob a cama. Eu e minhas irmãs nos divertíamos folheando. 

Atrizes ganharam muito dinheiro tirando a roupa para Playboy brasileira. Musas do cinema, teatro e televisão: Sônia Braga, Bruna Lombardi, Betty Faria, Lídia Brondi, Lucélia Santos, Sandra Bréa, Vera Fischer, Carla Camurati, Christiane Torloni, Maria Padilha, Marisa Orth.

Modelos como Xuxa, Luísa Brunet, Pietra, as cantoras Tânia Alves, Marina Lima, Rosemary, Elba Ramalho, Simony, a rainha do basquete, Hortência, jornalistas, socialites, apresentadoras de TV, até uma paquita, menor antecipada, Luciana Vendramini, apareceram em alguns ensaios fotográficos.

O autor de A Parte Que Falta, Shel Silverstein, sucesso editorial infantil e adulto, era cartunista da revista, que perdeu o rumo, como a cultura brasileira, e se fixou nas cantoras de axé, assistentes de palco de programas populares, que vendeu bem, mas tirou o status de uma das melhores revistas do mercado. 

Ela empregava os melhores fotógrafos. Bob Wolfenson fez dois ensaios antológicos: Maitê Proença, em preto e branco, andando nua pelas ruas de uma viela da Sicília sem ser incomodada, e Alexandra Negrini representando uma prostituta de rua.

J.R. Duran era o grande fotógrafo das mulheres. Fez 90 ensaios para a revista, um em cada cinco edições. É dele o com Adriana Galisteu, dos memoráveis e dos que mais venderam. Quem não se lembra da foto dela se depilando?

Luma de Oliveira esteve cinco vezes na capa da Playboy. No auge da estabilidade econômica, Tiazinha, Feiticeira e Dançarinas do Tchan, Sheilas Carvalho e Mello, bateram recorde de vendagem. 

Mas a revista perdeu o glamour, a exclusividade, o ineditismo. Vulgarizou-se. A internet vazou fotos restritas aos leitores. Todas as fotografadas se viram circulando peladas pelas redes. Nanda Costa foi das últimas grandes atrizes a sair. Elas perderam o interesse. Mendigata, Gari Gata, Chica Poderosa foram das últimas capas. A revista fechou. O mundo mudou. Perdeu, playboy.

O que nos leva a consumir sua nudez? Curiosidade, tara, admiração, comparação? Objetivamos a personagem. Na Renascença, escultores queriam mostrar as belezas naturais, clássica, do povo italiano, ou provocar a libido?

Na peça Carne de Mulher, a atriz Paula Cohen faz a plateia rir e se incomodar, ao declamar sarcasticamente o Monólogo da Puta no Manicômio, texto dos anos 1970 de Dario Fo e Franca Rame. 

“Encontrei um livro com um desenho de uma mulher nua dividida em partes, como esses desenhos pendurados nas paredes do açougue: uma vaca pintada por regiões. Cada zona do corpo da mulher estava pintada com cores diferentes, dependendo da sensibilidade mais ou menos forte ao tato do macho. Por exemplo, a zona do lombo, aqui, pintada de vermelho… Sensibilidade máxima. Depois, a parte daqui de trás do pescoço, de violeta, sabe, essa parte que quem vende frios chama de copa. Depois, as costas, que é a alcatra, cheia de pintinhas laranjas. E mais embaixo, a picanha e o coxão mole... A paleta produz um estremecimento erótico de morrer. Quase como se tocasse o nosso rosbife, que na verdade é o músculo transverso, que seria a parte interior da coxa.”

Revista de mulher nua tornou-se um contrassenso às conquistas femininas. Se a mulher pede que paremos de olhá-la como objeto de consumo, como carne, como desejo, se pede o fim do assédio, da cultura do estupro e equiparação salarial, é um despropósito publicá-las.

A minha adorada revista Trip tinha uma edição Funcionárias do Ano: “Mais uma vez deixamos o egoísmo de lado e mostramos a beleza de nossas colegas na Trip”. Claro que não foram forçadas. Tinham a opção do não. 

Mas como fica a relação trabalhista, se você não veste a camisa, ou tira a roupa, pela empresa? E como continua a convivência no ambiente de trabalho com a intimidade revelada?

“No dia a dia, elas fazem a editora funcionar sem perder o charme e ainda tornam nossa rotina mais agradável. Uma vez por ano, emprestam seu frescor e sua sensualidade para nossas páginas. Pela décima vez, Trip revela a beleza natural das mulheres que trabalham logo ali na mesa ao lado”, anunciava a edição 184 de 2009.

Acompanhando as fotos de funcionárias seminuas, surpresa, um texto do filósofo conservador Luiz Felipe Pondé (de Teologia e Literatura e O Catolicismo Hoje). “Quanto blablablá! Esqueçam a filosofia, estou aqui é pra falar como é bom ter mulheres lindas ao nosso redor. Neste caso, a beleza tem nome próprio: Cárita, Ana Paula, Jéssica, Ana Reis. Isso sim é erotismo. Dostoievski, Deus e Platão são o máximo, mas, diante de um par de pernas cruzadas em minha sala, esqueço meu cérebro, e me concentro em conseguir ver, de relance o que essas pernas cruzadas escondem.”

Como nós, homens, estávamos equivocados...

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