A nova roupagem de Xingu

No dia 25, a Globo começa a exibir como microssérie o filme de Cao Hamburger sobre os irmãos Villas-Boas

LUIZ CARLOS MERTEN, O Estado de S.Paulo

09 de dezembro de 2012 | 02h07

Houve um momento em que Fernando Meirelles quase desanimou. Sua empresa O2 Filmes investiu dinheiro e energia na realização de Xingu, mas o épico intimista de Cao Hamburger, apesar de ter sido bem recebido pelos críticos - e haver passado com garbo por festivais como Berlim -, ficou muito abaixo da expectativa de público. Xingu fez cerca de 400 mil espectadores - um pouco menos: 398 mil e alguma coisa. Na cabeça do produtor, dado o acordo com a Globo Filmes, havia sempre a ideia de que o filme, ao passar como série na TV, teria o público que merece. A decepção foi que, num determinado momento, a Globo recuou e fez saber que não ia se arriscar a um fracasso de audiência. Felizmente, a alta cúpula da emissora requisitou uma cópia de Xingu e, independentemente de audiência, decidiu que o programa iria ao ar, por sua importância histórica e humana.

O povo brasileiro merece conhecer a saga dos irmãos Villas-Boas (interpretados por Felipe Camargo, João Miguel e Caio Blat). E assim, no dia 25, como presente de Natal, Xingu estará indo ao ar no formato de microssérie em quatro capítulo. Cada um deles - até dia 28 -, terá a duração média de 25 minutos de duração. Com as inserções publicitárias, cada capítulo terá em torno de meia hora. A surpresa é que, basicamente com as mesmas imagens, o público da TV será agraciado com outro filme. "É incrível como o reordenamento da montagem deu outro ritmo a Xingu. O filme ficou mais dinâmico sem, perder a essência", avalia o diretor.

Cao é homem do audiovisual, que produz para TV e cinema. Ele reconhece que a minissérie Filhos do Carnaval, na HBO, lhe deu mais confiança na abordagem do veículo. "Não adianta querer fazer cinema na TV. As pessoas veem o filme, a novela dentro da dinâmica da casa, com tudo ocorrendo ao redor. Não é que as pessoas fiquem propriamente mais dispersivas, mas elas distribuem a atenção. É preciso levar em conta o tamanho e a concentração do veículo."

Cinéfilos de carteirinha talvez se lembrem da abertura do filme, quando Cláudio e Leonardo Villas-Boas se disfarçam na hora de se inscrever para a primeira expedição, a Roncador. A microssérie abre-se de outra forma, mais misteriosa, com o grupo avançando na selva e os índios encobertos nas folhagens, em primeiro plano. O clima ficou mais misterioso, além de ágil. O encontro de dois mundos - o dos brancos e o dos índios - reserva essa surpresa de dois olhares que se entrecruzam. Já havia isso no filme, mas agora, de cara, ficou mais nítido.

"Foi uma parceria muito bacana", diz Cao. Fernando Meirelles ressalta que Guel Arraes tem sido a porta de entrada da O2 na Globo. Cao acrescenta: "Ele deu ideias valiosas sobre a maneira como o material poderia ser reorganizado para ficar mais didático, sem ser chato. O filme foi montado pelo Gustavo Giane, que acaba de ser premiado na Argentina pelo Infância Clandestina. Para a versão TV, chamamos o papa (Daniel Rezende, montador de 'Cidade de Deus'). Quando ele foi para o Canadá para montar o Robocop do (José) Padilha, entrou o Lucas Gonzaga, que montou A Busca, do Luciano Moura, com Wagner Moura."

O diretor reconhece estar num momento privilegiado - quando Xingu estiver no ar, serão três as minisséries (ou microsséries) de Cao que o público poderá seguir na televisão. Ele tem outra parceria com a Globo, no canal Futura, Família Imperial, mais Pedro e Bianca na Cultura. E o importante é que com a cara nova que Xingu adquiriu, ele não abriu mãos dos temas que o levaram a realizar o filme. Está tudo lá - "A história dos irmãos é maravilhosa." O esforço deles para desbravar o Brasil respeitando o índio e suas fronteiras é uma coisa admirável - logo no começo, fica estabelecido que o formato não é hollywoodiano. Os irmãos e seus acompanhantes são cercados pelos índios. Um deles avança armado para o grupo. Em qualquer produção de Hollywood, sereia abatido ali mesmo. "Atirem para o alto, para o alto!", gritam os Villas-Boas.

A família desintegra-se, os irmãos separam-se. E, durante todo o tempo, mesmo quando unidos, eles vivem uma espécie de autoexílio - índios entre os brancos, brancos entre os índios. Meirelles e Cao Hamburger batem na mesma tecla. Eles acreditam que o público será conquistado pela saga dos Villas-Boas. Mas, mesmo na eventualidade de um fracasso de audiência - que não vai acontecer, tóc, tóc,. tóc, batem na madeira -, os 400 mil dos cinemas serão multiplicados nas TV. Quanto? "O que vier será lucro, o importante é que os brasileiros descubram seus heróis. Os Villas-Boas merecem todo nosso respeito, mas o filme não é nenhuma hagiografia. É importante retratá-los como os homens corajosos, altivos, mas falíveis que foram", diz o diretor, que, na sequência, começa a trabalhar na adaptação de um texto do escritor israelense Amós Oz.

Encontrou algum erro? Entre em contato

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.