A nova regra

Por um aplicativo, o torcedor poderá expor sua opinião a respeito do juiz, da sua mãe...

Marcelo Rubens Paiva, O Estado de S.Paulo

18 de abril de 2020 | 03h00

Muitos concordam que o fim da pandemia trará mudanças comportamentais profundas. Uma delas será o jeito de se torcer num estádio de futebol, já que vão ser repensados os eventos com aglomerações. O número de cadeiras num estádio será reduzido. Cada torcedor ficará a uma distância segura de dois metros do próximo. 

Como todos estarão de máscara, “Timão, ê-ô!” será um uníssono “Hmmm, em-hum!”. “Pooor-cooo...” será “Hooom-hoom...”. “É tri-co-lor!”, “Hu, hum-huu-huum!”. No gol, os torcedores se olharão e, sem se encostar, piscarão uns para os outros. Os das torcidas organizadas terão a audácia de encostar os cotovelos. 

Dizem os empreendedores que, em momentos de crise, pode-se fazer fortuna. Claro que eis uma chance de faturar: as máscaras virão com o escudo do time e o patrocinador do momento, e serão feitas pelo fornecedor do material esportivo do mesmo, com o logo no canto.

Através de um aplicativo, o torcedor poderá expor sua opinião a respeito do juiz, da sua mãe, ou do técnico, da sua mãe, que será transmitida via alto-falantes. Os cantos das torcidas também podem ser transmitidos em conjunto. Enquanto o torcedor estiver sentado, escolhe com o smartphone na mão a opção, e pelos alto-falantes sua voz se juntará a milhares de outras, num coro bem mixado que ecoa: “Aqui tem um bando de loucos...”.

Em alguns esportes, nada mudará. No tênis, por exemplo, em que a torcida é seleta, educada, bem-vestida, rica e pouco exaltada, os fãs ficarão numa distância apropriada, mas poderão continuar os “óoooo” e as palmas. Assim como os jogadores, que já ficam bem distantes uns do outros, deverão então se cumprimentar com a ponta da raquete. O juiz continua no alto, no seu saber.

No vôlei, o mesmo. Cumprimentarão com pés se encostando por baixo da rede. A bola que deverá sofrer higienização antes de cada saque. Tênis de mesa, sinuca, esqui na neve, atletismo, hipismo, nada será alterado. A não ser o bastão, no revezamento 4 x 100 metros, ou 4 x 400, que deverá ser higienizado antes da troca pelo próprio corredor e enquanto corre.

Esportes de contato sofrerão alterações. Judô será abolido de competições. Entra a capoeira: muito gingado, pontapé, rasteira. Esgrima não mudará nada, por motivos óbvios: a proteção é absoluta. Os esportes na piscina, ou de bicicleta, também. No basquete, só será permitida a marcação por zona, a dois metros de distância. Os jogadores estarão de luvas. Que serão trocadas em cada tempo técnico. Apenas um jogador poderá entrar no garrafão.

Paradoxalmente, o esporte de maior contato físico, feito para o agarra-agarra e trombadas, o futebol americano, não precisará mudar as regras. Os jogadores já estão de capacetes, máscaras e luvas, pois normalmente ele é praticado no outono e inverno, comemoram o touchdown com dancinhas individuais, no máximo uma peitada. Porém, os estádios sempre lotados da NFL terão que reduzir o público. 

O rúgbi será extinto. O beisebol também pouco será alterado. Quase não há contato físico. Quem pega a bola já está de luvas. O bastão é pessoal. E a partir de então, poderá ser utilizado caso alguém fure o distanciamento de dois metros: vira também uma arma de proteção individual.

Automobilismo também pouco sofrerá. Todos usam capacetes, máscaras, luvas, e ninguém chega perto. E como todos os pilotos no fundo se odeiam, será a chance de abolir o cumprimento protocolar no pódio.

Videogame, truco, pôquer, xadrez, Detetive, Imagem & Ação, palavras cruzadas se tornarão esportes olímpicos, dada a distância entre jogadores. Nosso futebol que sofrerá alterações nas regras. Como no basquete, permitida apenas a marcação por zona. A homem-a-homem e mulher-a-mulher, proibidas. 

Quem cuspir no gramado, vermelho. Falta, vermelho. Quem se aproximar do juiz ou bandeirinha, vermelho. Quem comemorar o gol abraçando o companheiro, enquanto a torcida exclama “Hoooooooooommm!”, vermelho. Quem cumprimentar o companheiro na substituição, vermelho, pros dois. 

O agarra-agarra na área, vermelho para o atacante e o defensor. Contraditoriamente, a falta que atualmente dá em expulsão imediata, o carrinho por trás, voltará a ser permitida, exaltada, afinal, ficarão expostos a fraturas, que encerram a carreira de um atleta, mas não ao temido vírus.

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