A nova literatura das mulheres do século 21

A escritora francesa Simone de Beauvoir costumava dizer que toda a história das mulheres foi escrita pelos homens. A frase continua martelando a cabeça de escritores como o premiado Luiz Ruffato, organizador da antologia 25 Mulheres Que Estão Fazendo a Nova Literatura Brasileira, que a Record coloca nas livrarias em junho. Muita coisa mudou desde que a autora de O Segundo Sexo deu seu veredito sobre as distorções provocadas pela hegemonia masculina na literatura. Ruffato, por exemplo, teve grandes dificuldades para organizar o livro de contos da Record - e elas não estavam ligadas à ausência de nomes expressivos. Ao contrário. Editores como Paulo Rocco, que publica livros de autoras presentes na antologia, estão muito felizes com o prestígio crítico e os resultados de vendas garantidos pela geração que começou a publicar nos anos 90. O sucesso das mulheres colocou Ruffato diante de um dilema: como fazer uma seleção justa com tantas escritoras de talento? A solução foi organizar uma segunda antologia, que sai no segundo semestre com mais 25 mulheres, algo impensável nos anos 30, quando Rachel de Queiroz e Patrícia Galvão (Pagu), vozes solitárias, ousaram confrontar o festejado mundo literário dos acadêmicos. A geração que surge no século 21 conta não só com a história das desbravadoras como com uma tradição que deu ao Brasil Clarice Lispector, Lygia Fagundes Telles, Hilda Hilst, Adélia Prado e Zulmira Tavares Ribeiro. A antologia de Ruffato confirma: superada a fase de defesa da igualdade de direitos, as mulheres estão menos preocupadas em afirmar sua identidade e mais concentradas na construção de uma linguagem. Entretanto, não há uma característica sociolingüística que identifique uma tribo ou algo parecido com uma "geração 90" da literatura. Entre elas, a jovem gaúcha Clarah Averbuck, de 25 anos, que começou escrevendo um blog (espécie de diário na internet), e a erudita Adriana Lisboa, de 34 anos, cujo recém-lançado livro Um Beijo de Colombina (Rocco) já está na segunda edição. Ruffato observa que em nenhum dos contos, exceto o da mineira Guiomar de Grammont (Glória), as escritoras falam por um homem, como Flaubert fala por madame Bovary. "Escritores se travestem com mais facilidade", analisa. Adriana Lisboa vai zerar as contas, colocando-se no lugar do narrador em seu próximo romance, ambientado no século 17. "Talvez as mulheres falem apenas por elas por uma necessidade inconsciente de se impor", especula a autora carioca, casada com o escritor Flávio Carneiro.Uma direção autobiográfica, embora não obrigatória, surge como um sinal da nova geração de escritoras. "Prevalece nela uma individualidade exacerbada na pesquisa de linguagem, mas dá para fazer um recorte", sugere o escritor Luiz Ruffato. Simone Campos estaria no bloco do universo pop (Clarah Averbuck, Ana Paula Maia). No meio do campo, que não é pop nem erudito, jogariam a escritora e cineasta carioca Nilza Rezende e a psicanalista, também carioca, Lívia Garcia-Roza. O segmento "intencionalmente literário" estaria representado pela paulistana Fernanda Benevides de Carvalho, de 34 anos, e as cariocas Paloma Vidal, de 29 anos, e Tatiana Salem Levy, de 25 anos, uma tradutora erudita que já publicou um ensaio sobre Foucault e Deleuze.

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