A nova-iorquina e a porto-alegrense

Hoje é dia de churrasco e fogos de artifício nos Estados Unidos. Mas uma certa nova-iorquina adotada não começou o feriado da Independência na espreguiçadeira de sua casa suburbana, a quarenta minutos de Manhattan. Hillary Clinton passou três horas e meia, no sábado, na sede do FBI, em Washington, sendo interrogada voluntariamente por agentes sobre o uso de um servidor privado e instalado na dita casa para se comunicar por e-mail quando era Secretária de Estado, no primeiro mandato de Obama.

Lúcia Guimarães, O Estado de S. Paulo

04 Julho 2016 | 02h00

Uma porto-alegrense adotada começou o fim de semana pedalando literalmente e continua a comemorar uma perícia que concluiu que ela não pedalou metaforicamente. Dilma Rousseff vê nisso a confirmação da contínua pureza de suas intenções e de sua distância olímpica do que se passou no porão do Titanic que pilotava.

Ao sair da sabatina do FBI, a candidata a primeira mulher presidente dos Estados Unidos não fugiu do assunto, embora seja sempre acusada de dar pouco acesso à mídia que lhe trata com um rigor na proporção inversa dos obedientes blogueiros recebedores da mesada do PT. De fato, Colin Powell, seu antecessor no governo George W. Bush, também se comunicava usando uma conta pessoal de e-mail. Hillary se ofereceu para ir ao FBI num dia em que seus eleitores e detratores estão na praia ou limpando as churrasqueiras. Na saída, deu entrevista à CNN.

Já a primeira mulher brasileira cuja presidência lhe foi depositada no colo por um antecessor que a descreveu como clone de si mesmo, continua sua turnê pela mídia internacional. Ela pipoca em vários continentes, protegida pela simpatia do colonialismo de esquerda. É uma forma de paternalismo que vê na corrupção da ex-colônia apenas um passo necessário para a emancipação do proletariado. É uma atitude condescendente que não discerne entre o trabalhador, resignado a molhar a mão do barnabé municipal para registrar sua carroça de frutas e legumes, do megaburocrata que compra uma refinaria sucateada para instalar um propinoduto. Na semana passada, foi a vez do jornal Independent londrino reivindicar mais uma “exclusiva” com a autocanonizada governante suspensa. Dilma dá exclusividade a jornalistas estrangeiros hoje com o entusiasmo demonstrado por Elizabeth Taylor para se casar. É uma forma de monogamia serial.

Quando o jornal levantou a bola para Dilma cortar, isto é, perguntando como ela é vítima de sexismo, a coração valente não decepcionou: confundiu alhos e bugalhos. Ela disse que é vítima de violência há muito tempo por sua história de vida. E se queixou de terem lhe perguntado sobre dormir de sapatos – algo que nada tem a ver com um salto alto e sim com o hábito de ex-guerrilheiros como ela de dormir prontos para fugir da polícia.

Em matéria de ser punida por seu sexo, Hillary pode dar uma aula magna à Dilma. Só enquanto surfava entre canais no fim de semana, dei com uma mesa-redonda de veteranos repórteres políticos de Nova York, suposta metrópole progressista, anunciada com a seguinte manchete: “Is she likable enough?” (“Ela é agradável o bastante?”).

Não falo de Hillary ser desdenhada, inclusive entre mulheres democratas com voz na mídia, por seus terninhos, seus sapatos rasos, seus quadris, seu penteado. Falo de uma fortuna colocada à disposição pelo ex-João Santana republicano de George W. Bush para ajudar a candidatura Bernie Sanders com propaganda negativa contra Hillary. Isto mesmo. Karl Rove, desde o ano passado, amealhou centenas de milhões de dólares entre doadores com o seguinte mote: vamos atacar Hillary com artilharia pesada para que ela chegue ferida à eleição geral, não importa quem seja o candidato republicano. Os ataques incluem as habituais palavras código que não se aplicam a candidatos homens – velha, dissimulada, autoconfiante demais, fria e desumana. Adivinhem – incontáveis “progressistas” eleitores de Sanders morderam a isca e seguiram a trilha das migalhas de pão na rede social, até ameaçando jornalistas mulheres que não tratavam Hillary com o esperado desprezo.

Ontem, num dos principais programas políticos dominicais na TV norte-americana, a veterana e nada esquerdista comentarista Cokie Roberts disparou: “Os números baixos de Hillary em liderança são totalmente ligados ao fato de ser mulher.” 

No vídeo em que endossou Hillary, Obama não disse que Hillary ia lhe obedecer ou esquentar a cadeira presidencial para sua volta. Disse que não imaginava outra pessoa mais qualificada a se candidatar para o cargo que ocupa. O que inclui ele mesmo, quando foi candidato.

Já Dilma não protestou quando seu padrinho pediu aos eleitores para engolir suas falhas como filhos que aturam a própria mãe. E disse aos brasileiros que quer ir à Olimpíada porque ela é a mãe e Lula é o pai da dos jogos no Rio.

Quem prefere viver aprisionada nos anos 1950, num episódio de Papai Sabe Tudo?

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