A nova face do Chile

José Luís Torres Leiva fala de seu filme que integra festival na Galeria Olido

LUIZ CARLOS MERTEN - O Estado de S.Paulo,

22 de junho de 2012 | 03h10

Apesar da chuva, e do frio, havia um público razoável para debater, com o diretor José Luís Torres Leiva, o longa O Céu, a Terra e a Chuva, na quarta-feira à tarde, na Galeria Olido. O longa integra a mostra Cinema Chileno Hoje, que começou na terça e vai até domingo. É formada principalmente por autores da nova geração. Nas salas, permanece Violeta Foi para o Céu, de Andrés Wood. Trata-se de uma rara oportunidade para se atualizar com tendências do novo cine do Chile.

A programação contempla filmes de Alberto Fuguet (Música Campesina e Velódromo), Niles Atalhah (Lucia) e Macarena Aguilo (O Edifício dos Chilenos), entre outros diretores. Há também Post Mortem, de Pablo Larraín, que o repórter entrevistou em Cannes, por conta de seu novo longa - No, com Gael García Bernal. Quando esteve em São Paulo para o lançamento de Violeta, Andrés Wood situou-se como um veterano, Larraín seria o mais velho dos jovens e os demais seriam a garotada que compõe a novíssima ola de Chile.

Torres Leiva é o único diretor da mostra a vir para a cidade. Depois de O Céu, a Terra e a Chuva, ele já fez outro longa, Verano (Verão). "É o oposto de El Cielo, la Tierra y la Lluvia. Esse é triste, concentrado, sombrio. O outro é alegre, solar. Mas ambos são roteiros originais e filmes de atmosfera." A fotografia é muito importante na construção do clima. O filme foi feito em película, e por conta disso saiu mais caro que a média da atual produção chilena, toda em digital.

O diretor explica - "Tive o privilégio de ser selecionado pela Fundação Hubert Bals, de Roterdã e por L'Atelier, de Cannes. Isso me permitiu firmar parcerias com a França e a Alemanha, que ajudaram a bancar o projeto." O Céu, a Terra e a Chuva é sobre quatro personagens, três mulheres e um homem. Todos solitários, mantêm uma espécie de rotina - juntam-se para comer, caminhar na praia. São ações pequenas, cotidianas. Procuram amor, sexo, uma família. "O filme já nasceu com poucos diálogos, ligado à paisagem, que é o quinto personagem", explica o diretor.

Ele assume que há algo de Robert Bresson e Carl Theodor Dreyer na construção dramática. "São autores que conheci ao estudar cinema. O circuito comercial no Chile não tem espaço para esse tipo de cinema, mas na faculdade aprendemos a conhecer esses diretores que praticam uma outra estética. O valor do silêncio, o despojamento da imagem." Torres Leiva destaca a solidariedade como o elo comum de sua geração. "Todos nos conhecemos e ajudamos. Participo de vários filmes da programação." Andrés Wood é uma espécie de guru para ele. "Não só para mim. Ele nos ensinou que esse tipo de cinema solidário é necessário em países periféricos, como o nosso."

O repórter não se furta a comentar a importância de certos filmes chilenos em sua formação - El Chacal de Nahueltoro, de Miguel Littín; Valparaiso, Mi Amor, de Aldo Francia; e Três Tristes Tigres, de Raoul Ruiz. "Todos são muitos bons", ele avalia, mas Ruiz é especial. "Embora a produção chilena seja uma parcela muito reduzida de sua obra, filmes como Tigres e Palomitas Blancas foram decisivos para a minha geração."

Há, no Chile, um cinema de mercado, veio com elenco e estilo de TV. Não é o que interessa a Torres Leiva. Seu intimismo radical equivale ao desejo de dar um testemunho geracional. A ditadura é um tema recorrente na mostra da Galeria Olido. Assistindo aos filmes, você vai conhecer não apenas novos autores, mas também se atualizará com a história do país, revista pelos próprios chilenos.

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