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A nova dupla do folhetim

'Sangue Bom', que estreia na Globo em abril, tem entre os temais centrais a adoção infantil

Cristina Padiglione, O Estado de S.Paulo

07 de março de 2013 | 02h14

Sangue Bom, que estreia na Globo em abril, tem entre os temas centrais a adoção infantil

Consciência individualista versus consciência coletiva: ter ou não ter noção do espaço à sua volta. É esse mote que norteia Sangue Bom, novela das 7 que estreia em 29 de abril, na Globo. A autoria é de Maria Adelaide Amaral e Vincent Villari, escritor que estreou na TV aos 18 anos e agora assina sua primeira novela como coautor. Na tarde de anteontem, a dupla recebeu o Estado no apartamento da escritora, no bairro de Higienópolis, para apresentar personagens, causas e efeitos de um enredo que embala adoção e valores éticos num bom romance, como convém a um folhetim.

Meio a contragosto, a inquieta dona da casa posa para fotos. "Detesto formalidades", diz Adelaide, que uma vez se recusou a ter o nome indicado para a Academia Paulista de Letras. "Não ia dar certo, eu falo muito palavrão e tenho muitas coisas que gosto de fazer, para ter de fazer qualquer outra coisa por obrigação." A seguir, um resumo da nossa conversa.

Qual será a trama central?

Maria Adelaide Amaral - Temos quatro jovens de classes sociais diferentes. Três deles têm uma ligação muito forte porque se encontraram na mesma casa de adoção. O Bento (Marcos Pigossi) mora lá até hoje, construiu uma edícula ali, tem uma floricultura, dirige uma cooperativa de flores, negocia com a Ceasa e envolveu todo mundo da rua na cultura de flores. A Amora (Sophie Charlotte), aos 10 anos foi adotada por uma estrela, uma fulana que sempre foi uma grande canastrona, que faz e acontece pra jamais sair da mídia. Isso pode variar de barracos a adoção de crianças, e Amora é uma delas. Quando a novela começa, temos Amora, uma It girl, uma senhora criada à sombra da Bárbara Ellen (Giulia Gam), em quem projetou todos os seus desejos e aspirações.

A menina é projeção da mãe?

Maria Adelaide Amaral - Amora é uma estrela da mídia. Não só estampa capas de revistas como tem um programa na TV fechada, Luxury, dirigido à classe A-A-A. Gostou, não gostou? Você vai gostar de muita coisa, vai reconhecer muita gente (risos). Mas não nos inspiramos em alguém específico, não.

Vincent Villari - O foco é muito direto: são as pessoas que optam por transformar sua vida pessoal num espetáculo, em material de consumo, versus quem opta por levar uma vida mais genuína e prezar as amizades, as relações com seus vizinhos, familiares. Existe essa consciência coletiva versus a consciência individualista, do núcleo da Bárbara Ellen, a Amora, o Natan Vasquez (publicitário interpretado por Bruno Garcia), São dois universos distintos, que vão se cruzar através da relação entre Bento e Amora, que se amam, a despeito de todas essas diferenças, desde a infância, desde o lar de adoção. Quando os dois se reencontram, o conflito principal acontece no movimento de um tentar trazer o outro para o seu mundo.

A direção da Globo sugere temas?

Maria Adelaide Amaral - Eles sabem que eu não escrevo novela das 9, não tenho mais saúde pra produzir 40 páginas por dia. Eu faço novela das 11, novela das 7, novela das 6, onde aliás eu comecei, fazendo Anjo Mau, que foi onde ele (aponta para Vincent) veio trabalhar comigo. Era uma novela das 6, hoje em dia não passaria nem às 9.

Por quê?

Maria Adelaide Amaral - É uma novela muito forte, que mexe, sem cerimônia, com temas como corrupção, Brasília, o vilão era eleito deputado federal, havia crimes. Hoje, o controle é outro, tem a classificação indicativa. Você não pode fazer mais nada. O personagem pega um copo, mas não pode beber. Imagina, uma novela (Anjo Mau) em que se pegava uísque à vontade?

Mas na novela das 9 sempre bebem.

Vincent Villari - Das 9 pode. 

Maria Adelaide Amaral - Arma também não pode. Vincent - Brindar, eles deixam. Agora, personagem consumir álcool, não, A personagem da Cláudia Raia em Ti-ti-ti vivia recebendo as clientes do Jacques Leclair com uma taça de champagne, e aí eles pediram pra dar uma cortada nesse champagne.

Mas 'eles' são quem? A própria emissora faz um autocontrole ou essas recomendações vêm de fora?

Maria Adelaide Amaral - Não sei, mas isso é um problema. Ti-ti-ti era de classificação livre e foi reclassificada por eles, lá em Brasília, não por nós, para 10 anos. Vai saber o que se passa pela cabeça deles. E eu que achei que fosse me libertar disso quando acabou a ditadura...

O Silvio de Abreu disse que às 19 h não pode botar arma na mão de personagem nem para ameaçar, o que é um contraste aos crimes dos noticiários do horário: pode no noticiário, não na ficção.

Vincent Villari - É uma questão muito delicada. Em Cobras & Lagartos, que fiz com o João Emanuel Carneiro, o personagem teve que ser assassinado com uma tesoura. Não podia arma, não podia faca, matamos com tesoura.

Vocês têm preocupação em inserir merchandising social na novela ou recebem alguma recomendação?

Maria Adelaide Amaral - Nós temos, por nossa conta. Na sinopse, tem essa cooperativa, e a Malu (Fernanda Vasconcelos) tem a Toca do Saci, de educação artística para menores carentes.

Vincent Villari - Mas não é algo que a gente pare a história para divulgar... 

Maria Adelaide Amaral - E o Bento vai dar aula de horticultura, isso vai crescer. É intenção transformar isso num projeto como o Meninos do Morumbi. 

Vincent Villari - O que nos interessa é desenvolver com contundência as relações humanas da história. 

Maria Adelaide Amaral - E fazer esse contraponto entre personagens midiáticos, cuja vida é uma performance, e os que buscam uma integridade e têm um prazer enorme nas coisas que fazem, ao invés de ficarem preenchendo vazios interiores que serão sempre buracos enormes e impreenchíveis, enquanto você botar as fichas naquilo que está fora de você. Essa insistência, que decorre da própria história de conflitos amorosos, é uma forma de dar um toque.

E tem a questão da adoção.

Maria Adelaide Amaral - Que é um processo dificílimo no Brasil. 

Vincent Villari - A Bárbara tem certeza de que a Angelina Jolie se inspirou nela. Porque tudo começou quando ela adotou a Amora e mostrou a Amora ao mundo. Isso foi muito antes de a Angelina Jolie e do Brad saírem por aí adotando. Na cabeça dela, a história dela teve repercussão internacional. Ela constrói um mundo de fantasia e acredita nisso.

Maria Adelaide Amaral - Como um monte de gente que a gente conhece. 

Vincent Villari - E quando a Malu (filha biológica de Bárbara) tenta trazer a mãe para o mundo real, ela rejeita, repele, não quer saber.

É uma doença.

Maria Adelaide Amaral - Sem dúvida, isso se chama alienação, mas isso é o que mais tem. Na verdade, pessoas como a Malu e o Bento são exceções. As pessoas querem ser famosas, ponto, sem ter um trabalho que justifique a fama, é o sucesso sem trabalho e a fama sem mérito. 

Vincent Villari - O pior não é a existência desses valores, mas o fato de que eles se tornaram tão banais, que ninguém mais reflete a respeito. 

Maria Adelaide Amaral - Não tenho nada contra o sucesso e a fama, mas 'cadê o teu trabalho?', pergunto. 

Vincent Villari - Essas pessoas tinham menos espaço e mais pudor, um tempo atrás. Não só tinham menos espaço, como lhes concediam menos espaço, as pessoas não ficavam babando. E é um movimento mundial, não é característico do Brasil. Antes, quando as pessoas queriam se valer da fama pela fama, havia um senso comum de que isso era o errado. Na última década, principalmente, isso passou a ser o correto, passou a ser o esperado. Hoje em dia, as mães querem que as filhas sejam capa de revista, participem de reality shows, as mães hoje em dia aspiram isso.

Escritora e dramaturga - Nascida em Alfena, em Portugal, Maria Adelaide Amaral escreveu minisséries como Os Maias, JK, Queridos Amigos, Um Só Coração, Dercy e A Casa das Sete Mulheres. Sua novela mais recente foi a adaptação de Ti-Ti-Ti sobre o original de Cassiano Gabus Mendes, na Globo.

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